Page 35 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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– Exatamente, menino. Lá, você ainda estaria mamando  em sua mãe e aquele ali, que deve ter
      cinqüenta anos, seria  um garoto de quatro anos e meio.
      – É incrível!  exclamaram todos a uma só voz.

      –  Mas  é  a  pura  verdade.  O  que  é  que  vocês  querem?    Quando  a  gente  insiste  em  ficar
      vegetando  neste  mundo,  não    se  aprende  nada,  fica-se  ignorante.  Agora,  dêem  um  pulo  a
       Júpiter e verão!
      Riram-se todos, acreditando apenas em parte nas histórias. Joe falou-lhes ainda de Netuno,
      onde  os  marujos  são  otimamente  recebidos,  e  de  Marte,  onde  os  militares  são  figuras
      importantes. Quanto a Mercúrio, era terra de facínoras,  povoada exclusivamente por ladrões

      e  negociantes,  tão  semelhantes  uns  aos  outros  que  se  tornava  impossível  distinguí-los.    E,
      finalmente, fez-lhes descrição realmente encantadora de Vênus.
      – E quando voltarmos desta expedição, seremos condecorados com a Cruz do Sul, que brilha
      lá em cima presa à  lapela do bom Deus.
      – Bem merecido!  disseram os marinheiros.
      Assim passavam divertidas as longas noites no castelo de  proa, enquanto em outro ponto do
      navio realizavam-se as  palestras instrutivas do doutor.

      Certa vez, em que foi abordado o assunto da direção dos  balões, solicitaram a Fergusson que
      desse sua opinião a respeito.
      – Não creio  disse ele  que se venha a conseguir  dirigir os balões. Conheço todos os sistemas
      experimentados.    Nenhum  deles  é  praticável.  Como  sabem,  é  questão  que  me    interessa
      sobremaneira e estudei-a a fundo. Todavia, cheguei  à conclusão de que não poderia resolvê-

      la  com  os  meios  fornecidos  pelos  atuais  conhecimentos  de  mecânica.  Seria  necessário
      descobrir-se  motor  de  potência  extraordinária  e  ao  mesmo    tempo  de  leveza  impossível.
      Assim mesmo, não se poderiam  vencer as correntes mais fortes.
      – Entretanto  ponderou alguém  existe grande afinidade entre um aeróstato e um navio, que se
      dirige à vontade.
      – Discordo  retrucou Fergusson. Existe pouca, se não  nenhuma. O ar e infinitamente menos
      denso que a água, na  qual só metade do navio está submersa, enquanto o aeróstato  acha-se
      inteiramente mergulhado na atmosfera e fica imóvel  em relação ao fluido que o cerca.

      – Julga então que a ciência aerostática estagnou?
      – Não, absolutamente! É preciso procurar outro meio de, no caso de não se conseguir dirigir o
      balão,  pelo  menos    mantê-lo  nas  correntes  atmosféricas  favoráveis.  À  medida  que    ele  se
      eleva, elas se tornam mais uniformes e são constantes  em sua direção. Não são afetadas pelos
      vales e montanhas  que sulcam a superfície do globo, causa principal das mudanças dos ventos

      e  da  variação  de  seu  rumo.  Ora,  uma  vez    determinadas  essas  zonas,  o  balão  só  terá  de
      colocar-se nas  correntes que lhe convierem.
      – Mas, nesse caso  considerou o comandante Pennet ,  para atingi-las seria necessário estar
      constantemente subindo  ou descendo. Aí está a grande dificuldade.
      – Como assim?
      – Bem, seria um obstáculo para as viagens de longo curso  e não para os simples passeios
      aéreos.

      – Por que não?
      – Porque só se sobe para perder lastro e se desce para  perder gás e, com isso, as provisões
      de gás e lastro se esgotarão rapidamente.
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