Page 30 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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diâmetro horizontal e vinte e dois de diâmetro vertical. A capacidade do balão interno era,
      pois, de dois mil, quatrocentos o doze metros cúbicos. Devia flutuar no gás que o cercava.
       Uma válvula aberta permitia que os dois balões se comunicassem entre si.

      Esta disposição apresentava a vantagem de, caso falhasse  a saída do gás quando quisesse
      descer,  imediatamente  deixar    escapar  o  do  balão  maior.  Mesmo  que  se  esvaziasse  por
      completo, o menor ficaria intacto. Era só desfazer-se do envoltório  externo, como de peso
      incômodo, e o segundo aeróstato, sozinho, não ofereceria ao vento a pouca resistência dos
      balões  parcialmente cheios.
      Além disto, em caso de acidente, de um furo no balão  externo, o outro estaria capacitado a

      substituí-lo.
      Os dois aeróstatos foram construídos com tafetá trançado  de Lião, revestido de guta-percha.
      Esta substância gomo-resinosa é de absoluta impermeabilidade e totalmente inatacável  pelos
      ácidos  e  pelo  gás.  O  tafetá  foi  justaposto,  dobrado,  ao    pólo  superior  do  globo,  onde  se
      processa quase todo o esforço.
      O  envoltório  podia  reter  o  fluido  por  tempo  ilimitado.    Pesava  oitenta  gramas  por  metro
      quadrado. Ora, sendo a  superfície do balão externo de aproximadamente três mil, oitocentos e

      vinte oito metros quadrados, seu envoltório pesava  duzentos e noventa quilos. O envoltório
      do segundo balão  pesava cerca de duzentos e trinta e um quilos. Assim, o peso  total era de
      quinhentos e vinte e seis quilos.
      A rede destinada a sustentar a barquinha foi confeccionada com corda de cânhamo de enorme
      resistência e as duas  válvulas foram objeta de meticulosa atenção, como seria feito  com a

      leme de um navio.
      A barquinha, de forma circular e com diâmetro de cinco  metros, era de vime, reforçada por
      leve armação de ferro e revestida na parte inferior de molas elásticas destinadas a  amortecer
      os choques. Seu peso, conjuntamente com o da  barquinha, não passava de cento e vinte e sete
      quilos.
      O doutor mandou construir, além disso, quatro caixas  de chapas de ferro de duas linhas de
      espessura.  Eram  ligadas    entre  si  por  tubos  munidos  de  torneiras. Aí  encontrava-se    uma
      serpentina de mais ou menos dois dedos de diâmetro  que terminava por duas ramificações de

      comprimento desigual,  medindo a maior oito metros de altura e a menor, apenas  cinco.
      As caixas de chapas de ferro foram colocadas na barquinha de forma a ocupar o menor espaço
      possível  e  a  serpentina,  que  somente  mais  tarde  deveria  ser  ajustada,  foi  empacotada
      separadamente,  assim  como  possante  pilha  elétrica  de    Bunsen.  Este  aparelho  fora  tão
      habilmente  construído  que    não  pesava  mais  de  trezentos  e  dezessete  quilos  e  meio,

      abrangendo vinte e cinco galões de água contidos em caixa especial.
      Os instrumentos destinados à viagem consistiam de dois  barômetros, dois termômetros, duas
      bússolas, um sextante, dois cronômetros, um horizonte artificial e um altazimute para  levantar
      a  planta  dos  objetos  distantes  e  inacessíveis.  O  observatório  de  Greenwich  colocou-se  à
      disposição do doutor, mas  este não se propunha a fazer experiências de física. Desejava tão-
      somente reconhecer sua direção e poder determinar a posição dos principais rios, montanhas e
      cidades.

      Muniu-se de três âncoras de ferro, submetidas a sérias  experiências, bem como de escada de
      seda leve e resistente, de dezesseis metros de extensão.
      Calculou igualmente o peso exato dos víveres. Consistiam  de café, chá, biscoito e carne-seca.
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