Page 7 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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entusiasmo, novo autor  Válter  Scott , e às suas aventuras históricas, que o jovem devorava,
        arrebataram-no  de  tal  modo,  que  ele  seguia,  pacientemente,    nas  cartas  geográficas,  o
      desenrolar da narrativa.

      Com  o  passar  do  tempo,  o  velho  Pedro  Verne  via  aumentar  sua  preocupação.  Júlio
      manifestava total indiferença pela carreira das leis e quase repugnância pela obrigação dos
      estudos sistemáticos dos cursos em que se matriculava. E quando, pouco antes de terminar os
      estudos secundários,  disse ao pai que sua verdadeira vocação era a literatura, o bom velho
      sentiu grande pesar e quis convencer o filho que a advocacia era o caminho natural e o melhor
      para ele.

      Pelo grande amor, pela veneração que devotava ao pai,  Júlio resolveu-se pelo sacrifício.
      Comprometeu-se  a  estudar    Direito,  sem  que    expulsasse  de  sua  convicção  a  idéia  de,  no
       futuro, entregar-se à literatura.
      10 Em outro verão, em outras férias, Carolina Doussault de  novo apareceu em Chanteney.
      Era,  agora,  uma  jovem  vaidosa,    certa  de  seus  encantos,  triunfante  de  puberdade  e  já  não
      estava disposta a deixar-se cortejar por colegiais. Júlio não  encontrou na mulher a ternura da
      menina e sentiu que aquela  pusera ponto final nos amores que esta encorajava. Ferido  em seu

      amor próprio, pensou em dar uma lição à orgulhosa  e bela Carolina, e, no inverno seguinte,
      estudou  com  afinco,    a  fim  de  fazer-se,  desde  logo,  homem  prático,  com  vida  econômica
      definida.  Mas  o  plano  de  Júlio  frustrou-se,  pois  não  tardou  a  ser  anunciado  o  noivado  de
      Carolina  com  cavalheiro  de  posição  social  e  econômica  estabilizada.  Este  foi  o  primeiro
      desengano amoroso de Júlio Verne. E entrou-lhe tanto  na alma que, daí por diante, até aos

      vinte e oito anos, fechou  o coração aos casos sentimentais.
      Para iniciar o curso de Direito, obedecendo a seu pai,  Júlio Verne foi mandado a Paris, em
      1848. Levou, ali, vida  difícil, cheia de asperezas. Com receio de que excesso de dinheiro
      pudesse  desviar  o  filho  do  melhor  caminho,  Pedro    Verne  só  lhe  mandava  o  estritamente
      necessário. Mesmo assim, Júlio gastava a maior parte na aquisição de livros, porquê  a leitura
      era a sua maior paixão.
      Cedendo  à  atração  da  vida  literária,  exacerbada  pela  excitante  convivência  com  o  mundo
      parisiense, Verne, ajudado  por algumas pessoas influentes, mas principalmente pela força  da

      própria vontade e da insistência de sua vocação, conseguiu  ser recebido no salão da senhora
      Barrera, onde conheceu vários escritores em evidência. Fez, logo, largo círculo de simpatias.
      Sua agilidade verbal, seu permanente humor e a variedade de seus conhecimentos faziam dele
      interlocutor agradável, excelente conversador, que atraiu para si a atenção dos freqüentadores.
      Alexandre  Dumas  levou  sua  simpatia  por  ele  a  ponto  de    dar-lhe  desinteressado  conselho

      sobre o rumo que devia seguir,  em matéria literária. Tendo em vista o fértil engenho que
       revelava, aconselhou-o a dedicar-se à comédia musicada e à  opereta.
      A esta altura, aproximavam-se os exames do primeiro ciclo do curso e Júlio Verne, consciente
      dos  seus  deveres  e  do    compromisso  feito  com  o  pai,  adiou  todos  os  projetos  literários.
      Embora  não  houvesse  estudado  muito,  nem  tivesse  entusiasmo  pelo  curso,  obteve  notas
      razoáveis,  conquistadas  mais  com  a  sua  natural  inteligência  e  com  a  sua  prodigiosa
      capacidade de assimilação.

      Ao  regressar,  em  férias,  foi  carinhosamente  recebido  em    casa  pelo  velho  pai  que  sentia
      renascer  as  esperanças  de  fazê-lo    advogado.  Pensava  que,  com  o  correr  dos  tempos  e  o
      seguimento do curso, as tendências literárias desaparecessem.
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