Page 12 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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distinguiu em várias ações. Mas a vida de soldado não lhe agradava. Assim como não
aspirava ao comando, também não gostava de obedecer. Pediu demissão e, já caçando, já
herborizando, dirigiu-se para o norte da península indica, atravessando-a desde Calcutá até
Surate, em simples passeio de amador.
De Surate passou à Austrália e fez parte, em 1845, da expedição do capitão Stuart, incumbido
de descobrir o mar Cáspio que se supunha existir no centro da Nova Holanda.
Samuel Fergusson voltou à Inglaterra em 1850 e, tentado mais do que nunca pelo demônio das
descobertas, acompanhou o capitão Mac Clure, até 1853, na expedição que costeou o
continente americano desde o estreito de Béringue até o cabo Farewell.
A constituição robusta de Fergusson resistiu maravilhosamente a todo gênero de fadigas e a
todos os climas. Nem as maiores privações o incomodavam. Era o tipo perfeito do viajante,
com um estômago que à vontade se dilata ou se contrai, com pernas que se estendem ou
encolhem conforme o leito da ocasião, capaz enfim de adormecer a qualquer hora do dia e
levantar-se a qualquer hora da noite.
Não é de espantar que nosso infatigável viajante visitasse, de 1855 a 1857, todo o oeste do
Tibete, resultando dessa exploração curiosas observações etnográficas.
No transcurso das diversas viagens, Samuel Fergusson fora o correspondente mais ativo e
interessante do Daily Telegraph, jornal de cento e quarenta mil exemplares diários. Era
bastante conhecido, embora não fosse membro de nenhuma instituição douta, nem das reais
sociedades geográficas de Londres, Paris, Berlim, Viena ou São Petersburgo, do Clube
dos viajantes ou sequer do Real Instituto Politécnico, onde pontificava seu amigo, o estatístico
Kokburn. Esse sábio, no intuito de lhe ser agradável, chegou mesmo um dia a propor-lhe
resolver o seguinte problema: dado o número de quilômetros percorridos pelo doutor à volta
do mundo, quantos fizera a sua cabeça a mais do que os pés, considerada a diferença dos
raios?
Ou então, conhecido o número de quilômetros percorridos pelos pés e pela cabeça do
doutor, calcular a sua exata estatura.
Mas Fergusson sempre se manteve afastado das sociedades eruditas, pertencendo à igreja
militante e não à tagarelante; achava o tempo melhor empregado a pesquisar do que a discutir,
a descobrir do que a discorrer.
Conta-se que um inglês foi um dia a Genebra com a intenção de visitar o lago; mandaram-no
subir para unia dessas antigas carruagens onde as pessoas se sentavam de lado, como nos
ônibus, e sucedeu por acaso que o nosso inglês ficou colocado de modo a dar as costas para o
lago. O veículo fez pachorrentamente a sua viagem circular sem que ele pensasse em voltar-
se uma única vez, tendo regressado a Londres contentíssimo com o lago de Genebra.
O doutor Fergusson, porém, virara-se muitas vezes nas suas viagens, e tanto se voltou que viu
muitas coisas. Nisso, aliás, obedecia ao seu temperamento, e temos boas razões para crer que
era um tanto fatalista, mas de um fatalismo muito ortodoxo, contando consigo e com a
Providência, dizendo-se mais impelido do que atraído para as suas viagens, à maneira de
uma locomotiva que não se dirige, antes é dirigida pelos trilhos.
– Eu não persigo o meu caminho dizia ele muitas vezes , é o meu caminho que me persegue.
Ninguém, portanto, se surpreenderá da serenidade com que acolheu os aplausos da Real
Sociedade; estava acima dessas ninharias, não tendo orgulho e ainda menos vaidade; achava
perfeitamente natural a proposta que fizera ao presidente Francisco M... e nem sequer notou o

