Page 8 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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Ao voltar a Paris, para a segunda etapa do curso, Júlio Verne entregou-se de corpo e alma à
sua primeira obra do gênero aconselhado por Dumas As Palhas Rompidas destinada a
passar para o rol das coisas sem glória.
Entretanto, já no verão seguinte, certo empresário de Nantes pediu permissão a Verne para
encenar a obra num teatro local. E, por ocasião da estréia, desejou que a família do novo
teatrólogo presenciasse a representação. Sofia Alote, levada pelo amor de mãe, aprovou a
obra, mas Pedro Verne não pôde deixar de reprovar o filho, por haver perdido tempo com
gênero tão mofino. O Próprio Júlio deu-lhe razão. Não lhe satisfazia inteiramente o teatro
vaudevillesco. Ansiava por coisa melhor, mais séria, mais original.
"Ao completar o curso de Direito, tinha que se decidir. Ou iria redigir petições e recursos ou
definitivamente penderia para a literatura; o mundo sofria, então, radical mudança. A técnica e
as invenções revolucionavam a vida da humanidade. Cada dia o mundo assistia a uma
conquista científica nova. Hoje, a tração pelo vapor. Amanhã, os aeróstatos. No dia seguinte,
a eletricidade. Dentro da realidade da vida, estas coisas fantásticas que pareciam milagres.
Júlio Verne acompanhava com paixão o evolver do mundo. Sabia que a paixão não era sua,
somente. Muitos se empolgavam pelo progresso e pelo avanço da técnica. As notícias a
respeito eram devoradas demorada e minuciosamente pelo povo.
Estas circunstâncias apontavam o caminho literário que Verne iria seguir. E elas se
encadearam de tal maneira que se poderia dizer que o destino interferia no futuro e na glória
do escritor. A circunstância seguinte foi o conhecimento com Jaques Arago, irrequieto
viajante e naturalista. Jaques, com suas narrações, vivas e movimentadas, inendescia a alma
ardente de Verne. Suas narrativas de viagens, aventuras, de terras desconhecidas, de atos de
heroísmo apresentavam um mundo de sonho concretizado pela realidade da ciência.
Não poderia, pois, ser surpreendente a decisão de Júlio Verne, renunciando à segurança e à
tranqüilidade do escritório de advocacia que seu pai lhe oferecia, para arriscar o seu futuro na
literatura. Ao invés de Nantes, na banca profissional, Paris, na incerta procura de editores.
Juntamente com a dor de haver causado grande mágoa a seu pai e da fome, que, às vezes, era
sua companheira, Júlio mantinha a sua fé, enquanto vivia intensamente no refinado ambiente
literário da capital da França.
Por esta época, novo autor chamou a atenção de Verne. Era Edgar Alan Poe. Seus entrechos
misteriosos e apaixonantes seduziam os leitores comuns, e Verne, especialmente, empolgou-
se pela sua obra. Mas viu-lhe uma lacuna. A falta de preparação científica que tirava a
verossimilhança de suas Histórias.
Aquele seria o caminho de Verne. A ficção científica, fundamentada no empolgante do
entrecho e no conhecimento científico da tese explorada. Precisava, entretanto, de sustentar-se
e era preciso, ainda por uns tempos, escrever peças musicais de teatro. Aproveitava, porém,
o tempo que lhe restava para estudar com dedicação os assuntos científicos da época,
preparando-se para fazer obras maravilhosas como as de Poe, mas com fundamento científico
que lhes desse o máximo de interesse e de verossimilhança.
Aos vinte e quatro anos Verne inicia a sua sensacional carreira de escritor. O pórtico de sua
glória foi um semanário popular, chamado Museu das Famílias, no qual, depois de múltiplas
atividades de sobrevivência, Júlio foi admitido, exatamente para encarregar-se de seção em
que se trataria de narrações sobre temas científicos.
Talvez se possa dizer que o destino reservara caprichosamente para Verne a glória da ficção

