Page 72 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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Em todo o caso, o doutor, menos otimista, soltou o máximo de corda que pôde, a fim de
escapar aos implacáveis insetos que já subiam com zumbido inquietador.
– Estamos numa ilha! disse Joe, coçando-se a ponto de fazer sangue.
– Não levaríamos muito tempo a dar uma volta por ela respondeu o caçador e a não serem
esses amáveis insetos não se percebe outro ser vivo.
– As ilhas de que este lago está semeado interveio o doutor Fergusson não são a bem dizer
senão picos de colinas imersas. Mas tivemos sorte de encontrar aqui um abrigo, porque as
margens do lago são habitadas por tribos ferozes. Durmam, portanto, visto que o céu nos
promete uma noite tranqüila.
– Não vai fazer o mesmo, Samuel?
– Não, eu não poderia pregar olho. Amanhã, amigos, se o vento for favorável, marcharemos
para o norte a descobrir talvez as nascentes do Nilo, esse segredo até agora impenetrável. Tão
perto das origens do grande rio eu não conseguiria dormir.
Kennedy e Joe, que as preocupações científicas não inquietavam a tal ponto, não tardaram a
adormecer profundamente.
Na quarta-feira, vinte e três de abril, o Vitória aparelhou-se às quatro horas da manha, com
céu pardacento. A treva custava a deixar as águas do lago, que denso nevoeiro envolvia.
Logo, porém, rude vento dissipou toda a bruma. O Vitória balançou durante alguns minutos
em sentidos diversos e por fim encaminhou-se diretamente para o norte.
O doutor Fergusson esfregava as mãos de contente.
– Estamos em bom caminho! disse ele. Veremos o Nilo hoje ou nunca mais. Estamos
entrando em nosso hemisfério!
– Ah! exclamou Joe. O senhor acha que o equador passa por aqui?
– Justamente por aqui, meu rapaz!
– Nesse caso, com sua licença, parece-me conveniente fazer-lhe um brinde.
– Pois seja concordou o doutor rindo. Tomemos alguma coisa. Afinal, é um modo de entender
a cosmografia que não deixa de ter seu cabimento.
E assim foi celebrada a passagem da linha do equador, a bordo do Vitória. O balão deslizava
rapidamente. Avistava-se a oeste a costa baixa e pouco acidentada. Ao fundo, os planaltos de
Uganda e de Usoga. A velocidade do vento ia-se tornando excessiva. As águas do lago
erguidas com violência, espumavam como ondas do mar.
– Este lago tornou o doutor é sem dúvida, pela sua posição elevada, o reservatório natural
dos rios da parte A bacia do rio alargava-se, salpicada de ilhas...
oriental da África. O céu devolve-lhe em chuva o que rouba em vapores aos seus afluentes.
Parece-me certo que o Nilo tem aqui a sua origem Havemos de certificar-nos replicou
Kennedy.
Pelas nove horas, a costa de oeste aproximou-se. Parecia deserta e coberta de matas. O vento
levantou-se um pouco para leste e foi possível entrever a outra margem do lago. Curvava-se
de modo a terminar por ângulo muito aberto, a dois graus e quarenta minutos de latitude
setentrional.
Altas montanhas erguiam os seus cumes áridos naquela extremidade do lago, mas, entre elas,
garganta funda e sinuosa dava passagem a um rio fervilhante. Manobrando o aeróstato, o
doutor Fergusson examinava a região com olho ávido.
– Olhem! berrou ele. As narrativas dos árabes eram exatas! Eles falavam de um rio pelo qual

