Page 76 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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A SENHORA BLANCHARD
Em que direção vamos? perguntou kennedy vendo o amigo consultar a bússola.
– Nor-noroeste.
– Que diabo! mas então não é o norte!
– Com efeito, Dick, e parece-me que teremos dificuldade em alcançar Gondocoro. Lamento,
mas enfim já ligamos as explorações de leste com as do norte e não nos podemos queixar.
O Vitória afastava-se pouco a pouco do Nilo.
– Um último olhar acrescentou o doutor a esta latitude inacessível que os mais intrépidos
viajantes nunca ultrapassaram! Aí estão as intratáveis tribos assinaladas por Petherick,
d'Arnaud e Miani, e pelo jovem viajante Lejean, a quem devemos os melhores trabalhos
sobre o alto Nilo.
– De modo perguntou Kennedy que as nossas descobertas concordam com as previsões da
ciência?
– Inteiramente. As nascentes do Rio Branco, do Bahr-elAbiad, mergulham num lago que pelo
seu tamanho pode ser considerado mar. É lá que ele nasce. A poesia talvez perca com isso,
pois gostava-se de atribuir a esse rei dos rios origem celeste. Os antigos davam-lhe o nome
de Oceano e não andavam muito longe de acreditar que ele emanava diretamente do sol. Mas
temos de submeter-nos e aceitar, de vez em quando, o que a ciência nos demonstra. Nem
sempre haverá sábios, mas poetas sempre há de haver!
– Ainda se vêem as cataratas observou Joe .
– São as cataratas de Maquedo, a três graus de latitude. Nada há mais certo) Que pena não
podermos acompanhar durante algumas horas o curso do Nilo1 E lá longe, à nossa frente?
perguntou o caçador. Parece-me avistar cume de montanha!
– É o monte Logwek, a Montanha Oscilante dos árabes. Toda a região foi visitada por
Debono, que a percorreu sob o nome de Latif Effendi. As tribos vizinhas do Nilo são inimigas
e andam em permanente guerra de extermínio. Imaginem os perigos que deve ter enfrentado!
O vento levava então o Vitória para noroeste. A fim de evitar o monte Logwek, era necessário
procurar corrente mais inclinada.
– Amigos disse o doutor aos companheiros , agora é que verdadeiramente iniciamos a nossa
travessia africana. Até aqui seguimos as pegadas dos nossos predecessores. Doravante,
entramos no desconhecido. Não nos irá faltar coragem?
– Nunca! gritaram ao mesmo tempo Dick e Joe.
– Então, a caminho e que o céu nos proteja!
As dez horas da noite, por sobre barrancos, florestas e aldeias espalhadas, os viajantes
chegaram ao flanco da Montanha Oscilante, cujas rampas suaves afloravam. Naquele
memorável dia vinte e três de abril, num percurso de quinze horas, impelidos por vento
rápido, haviam percorrido distância de mais de trezentas e quinze milhas.
Mas esta última parte da viagem deixara-lhes triste impressão. Completo silêncio reinava na
barquinha. Estaria o doutor Fergusson absorto nas suas descobertas? Seus dois companheiros
meditariam acaso naquela travessia por entre regiões desconhecidas? Era um pouco de tudo

