Page 77 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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isso,  sem  dúvida,    unido  às  mais  vivas  recordações  da  Inglaterra  e  dos  amigos    distantes.
      Apenas  Joe  mostrava  despreocupada  filosofia,  achando  muito  natural  que  a  pátria  não
      estivesse ali, uma  vez que estava ausente. Contudo, respeitou o silêncio de  Samuel Fergusson

      e Dick Kennedy. Às dez horas da noite, o Vitória ancorava em frente da Montanha Oscilante.
      Fez-se  refeição substancial e cada qual adormeceu sucessivamente sob a guarda dos outros.
      No dia seguinte, ao acordar, as idéias estavam mais serenas.  Fazia lindo tempo e o vento
      soprava do lado favorável. Bom almoço, alegrado por Joe, acabou dispondo bem os espíritos.
       A região naquele momento percorrida é imensa, confinando  com as montanhas da Lua e as do
      Farfur. Qualquer coisa do  tamanho da Europa.

      – Estamos atravessando, sem dúvida  disse o doutor ,  o que se imagina ser o reino de Usoga.
      Alguns  geógrafos  têm    afirmado  existir  no  centro  da  África  vasta  depressão,  imenso    lago
      central. Veremos se há alguma aparência de verdade.
      – Esta região será toda habitada?  perguntou Joe.
      – Decerto, e mal habitada.
      – Logo vi.
      – As tribos que por aí vivem espalhadas estão compreendidas na denominação geral de Niam-

      Niam. Este nome outra  coisa não é que uma onomatopéia. Reproduz o ruído da mastigação.
      – É mesmo!  concordou Joe  niam! Niam!  Meu caro Joe, se você fosse a causa imediata dessa
       onomatopéia, não a acharia tão apropriada.   Que quer o senhor dizer?
      – Que estas tribos são consideradas antropófagas.   Isso é certo?
      – Certíssimo. Houve mesmo quem pretendesse que estes indígenas eram providos de cauda,

      como simples quadrúpedes,  mas logo se identificou tal apêndice com peles dos animais com
      que eles se cobriam.
      À tarde, o céu cobria-se de nevoeiro quente que subia  do chão, mal permitindo distinguir os
      objetos terrestres, de  modo que o doutor, temendo esbarrar com algum pico imprevisto, pelas
      cinco horas deu sinal de parada.
      A  noite  passou  sem  novidade,  mas  fora  preciso  redobrar    de  vigilância  naquela  profunda
      escuridão.
      A monção soprou com extrema violência durante a manhã do dia seguinte. O vento engolfava-

      se  nas  cavidades  inferiores  do  balão,  agitando  violentamente  o  apêndice  pelo  qual
        penetravam  os  tubos  de  dilatação.  Foi  preciso  segurá-los  com    cordas,  manobra  que  Joe
      executou muito habilmente.
      Ficou  ao  mesmo  tempo  verificado  que  o  orifício  do  aeróstato  permanecia  hermeticamente
      fechado.

      –  Isto  tem  dupla  importância  para  nós    berrou  o  doutor    Fergusson.  Em  primeiro  lugar,
      evitamos  o  desperdício  de  gás    precioso.  Depois,  não  deixamos  em  redor  de  nós  rastro
      inflamável, ao qual mais tarde ou mais cedo acabaríamos deitando  fogo.
      – Seria desagradável incidente de viagem  disse Joe.
      – E cairíamos ao chão?  perguntou Dick.
      –  Cair,  não!  O  gás  por-se-ia  a  arder  vagarosamente  e    nós  iríamos  descendo  aos  poucos.
      Acidente igual aconteceu  a uma aeronauta francesa, a senhora Blanchard, que incendiou o

      balão  ao  lançar  alguns  fogos  de  artifício,  mas  não    caiu,  nem  decerto  teria  morrido  se  a
      barquinha não fosse  contra uma chaminé, de onde resultou ser atirada ao chão.
      –  Esperemos  que  nada  de  semelhante  nos  aconteça      volveu  o  caçador. Até  aqui  a  nossa
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