Page 74 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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– Muito bem!
      O balão não tardou a acompanhar o leito do rio, a menos  de trinta metros. O rio media setenta
      metros naquele ponto  e os indígenas agitavam-se tumultuosamente nas aldeias que  orlavam as

      duas  margens.  Formavam  ali  uma  cascata  a  pique  de  cerca  de  trinta  metros  de  altura,
      intransponível por conseqüência.
        Lá está a cascata a que se referiu Debonol  gritou  o doutor.
      A  bacia  do  rio  alargava-se,  salpicada  de  ilhas  que  o  doutor    ia  devorando  com  os  olhos,
      parecendo  procurar  ponto  de  referência  que  ainda  não  avistara.  Alguns  negros  tinham
      avançado num barco para debaixo do balão e Kennedy saudou-os  com um tiro de espingarda

      que, sem atingi-los, obrigou-os a  regressar à margem.
      – Boa viagem!  desejou-lhes Joe. No lugar deles não  me arriscaria a voltar, com medo deste
      monstro que despede  raios à vontade.
      Mas  eis  que  o  doutor  Fergusson  apanhou  de  repente  o  óculo,  apontando-o  para  uma  ilha
      reclinada em meio do rio.
      – Quatro árvores!  exclamou ele. Vejam, lá adiante! Com efeito, erguiam-se na ilha quatro
      árvores isoladas.   É a ilha de Bengala! É ela!  tornou Fergusson.

      – E então?  perguntou Dick.
      – É lá que vamos descer, se Deus quiser.   Mas parece habitada, senhor Samuel!
      – Joe tem razão. Se não me engano, estou vendo um grupo de vinte indígenas.
      – Havemos de pô-los em fuga, não será difícil  replicou  Fergusson.
      – Seja como diz  volveu o caçador.

      O sol estava no zênite. O Vitória aproximou-se da ilha.
      Os negros, pertencentes à tribo de Macado, romperam  em gritos enérgicos e um deles agitava
      no ar o seu chapéu  de casca de árvore. Kennedy tomou-o por ponto de mira, fez  fogo e o
      chapéu voou em pedaços. Foi uma debandada geral,  Os indígenas precipitaram-se para o rio
      e atravessaram-no a  nado. De ambas as margens veio uma saraivada de balas e  uma chuva de
      flechas,  mas  sem  perigo  para  o  aeróstato,  cuja    âncora  mordera  fenda  de  uma  rocha.  Joe
      escorregou para  terra.
      – A escada!  gritou o doutor. Venha comigo, Kennedy!   Que vai fazer?

      – Desçamos. Necessito de testemunha.   Aqui vou.
      – Joe, trate de vigiar bem!
      – Fique sossegado, meu amo, respondo por tudo.
      – Vamos, Dick  tornou o doutor, pondo pé em terra.
      Levou o companheiro para um grupo de rochedos que se erguiam na ponta da ilha e andou

      procurando por algum tempo. Esquadrinhou o mato até ficar com as mãos em sangue.
      De repente, segurou com força o braço do caçador.   Olhe!  berrou.
      – Letras!  exclamou Kennedy.
      Com  efeito,  duas  letras  gravadas  na  rocha  apareciam  com  toda  a  nitidez.  Liam-se
      perfeitamente: A. D.
      – A. D.  continuou o doutor Fergusson. Andréia Debono! A própria assinatura do explorador
      que mais longe alcançou o curso do Nilo!  Não pode haver a menor dúvida, amigo Samuel.

      Está convencido agora?   É o Nilo, não há que ver!
      O  doutor  olhou  pela  derradeira  vez  aquelas  preciosas  iniciais  e  tomou-lhes  exatamente  a
      forma e as dimensões.
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