Page 145 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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espécie. Eram mais de cento e cinqüenta camelos, desses que por doze mutkals de ouro vão
de Tombuctu a Tafilalet com carga de duzentos e cinqüenta quilos no lombo. Todos levavam
sob a cauda pequeno saco destinado a receber-lhes os excrementos, único combustível com o
qual se pode contar no deserto. Os camelos dos tuaregues são da melhor raça, podendo ficar
de três a sete dias sem beber e dois sem comer. Sua marcha é superior à dos cavalos e eles
obedecem com inteligência à voz do khabir, o guia da caravana. São conhecidos no país pelo
nome de inchari.
Tais foram as informações dadas pelo doutor, enquanto os companheiros contemplavam
aquela multidão de homens, de mulheres e de crianças, que andava com dificuldade em areia
meio movediça que alguns cardos, uma relva emurchecida e espinheiros sustinham com
dificuldade. O vento apagava-lhe as pegadas quase instantaneamente.
Joe indagou como conseguiam os árabes orientar-se no deserto e chegar aos poços
espalhados naquela imensa solidão.
– A natureza deu aos árabes explicou Fergusson um maravilhoso instinto de orientação.
Qualquer pedra insignificante, cascalho, moita de relva, até mesmo a cor diferente das areias,
lhes servem de indício. Um europeu se sentiria perdido, mas eles caminham com segurança e à
noite se guiam pela estrela polar. Só andam quatro quilômetros por hora e descansam durante
os grandes calores do meio-dia. Por aí podem imaginar quanto tempo levam para atravessar
o Saara que tem mil e quinhentos quilômetros.
Mas o Vitória já desaparecera diante dos olhos espantados dos árabes, que invejaram
certamente a sua rapidez. À tarde passaram a dois graus e vinte minutos de longitude (zero do
meridiano de Paris) e andaram mais de um grau durante a noite.
Na segunda-feira, o tempo mudou completamente e a chuva começou a cair com violência.
Foi preciso resistir àquele dilúvio e ao aumento de peso que influía sobre o balão e sobre a
barquinha. O aguaceiro contínuo era a razão dos pântanos e dos brejos que cobriam quase
toda a superfície daquela região. A vegetação começava a reaparecer. Aqui e ali surgiam
mimosas, baobás, tamarineiras.
Ali estava o Sonrav, com suas aldeias cobertas de telhados que se inclinavam como bonés
armênios. A parte montanhosa parecia insignificante, apenas um número pequeno de colinas,
justamente o necessário para a formação de barrancos de reservatórios, sobre os quais
voavam narcejas e galinhas-d’angola. As vezes uma torrente impetuosa cortava os caminhos
que os indígenas atravessavam agarrando-se aos cipós estendidos entre uma árvore e outra.
As florestas substituíam a mata espessa onde se movimentavam jacarés, hipopótamos e
rinocerontes.
– Não tardaremos a ver o Níger declarou o doutor. A região se transforma nas proximidades
dos grandes rios. Aquelas estradas que, por assim dizer, caminham, segundo feliz conceito,
trouxeram com elas a vegetação, como vão trazer mais tarde a civilização. O Níger, por
exemplo, em seu percurso de quase cinco mil quilômetros, semeou nas suas margens as
cidades mais importantes da África.
– Ah! exclamou Joe. Isto me lembra a história daquele grande admirador da Providência que
a louvava pelo cuidado que tivera de fazer com que os rios atravessassem as grandes
cidades!
Ao meio-dia, o Vitória passava por cima de pequena povoação, composta de grupo de choças
miseráveis, Gao, que foi outrora grande capital.

