Page 141 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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UMA NOITE PERTO DE AGADÉS





      O  vento  repousou  durante  a  noite  dos  violentos  esforços  do  dia  e  o  Vitória  permaneceu
      quietamente  sobre  a  copa    de  alto  sicômoro.  O  doutor  e  Kennedy  ficaram  de  vigia
      alternadamente e Joe aproveitou para dormir de um sono só  vinte e quatro horas.
      – É o remédio de que ele precisa  observou Fergusson.  A natureza se encarregará de curá-lo.
      No outro dia, o vento voltou com força, mas caprichoso.  Virava repentinamente do norte para

      o sul, mas por fim o  Vitória foi levado para oeste.
      O doutor, com o mapa na mão, identificou o reino do  Damerghu, terreno onduloso de grande
      fertilidade, com as  choças das aldeias feitas de grandes caniços entremeados de ramos de
      asclepiádeas.  As  moendas  de  grãos  erguiam-se  nos    campos  cultivados,  sobre  pequenos
      andaimes destinados a preservá-las da invasão dos ratos e formigas brancas.
      Em breve alcançaram a aldeia de Zinder, reconhecível pela  sua vasta praça de execuções. No

      centro, levanta-se a árvore  da morte, junto à qual vigia o carrasco. Quem pisar a sua sombra é
      imediatamente enforcado. Consultando a bússola,  Kennedy não pôde deixar de dizer:
      – Cá estamos outra vez a caminho do norte!
      – Não tem importância. Se formos dar a Tombuctu não  teremos de que nos queixar! Nunca se
      fará mais bela viagem  em melhores circunstâncias!
      – Nem com melhor saúde  respondeu Joe, passando a  boa face risonha através dos panos do
      toldo.

      – Ora, aí temos o nosso valente amigo!  bradou o  caçador. O nosso salvador! Então, como vai
      isso?
      – Muito naturalmente, senhor Kennedy, muito naturalmente! Nunca me senti tão bem. Não há
      nada para fortalecer um homem como uma viagenzinha de recreio iniciada  por um mergulho
      no Tchad! Hein, meu amo?
      –  Excelente  alma!    respondeu  Fergusson,  apertando-lhe    a  mão.  Quantas  angústias  e

      preocupações nos causou!
      – E os senhores, então? Imaginam que eu estava tranqüilo quanto à sorte do Vitória? Podem
      gabar-se de haver-me  pregado um bom susto!
      – Nunca nos entenderemos, Joe, se continua a tomar as  coisas por esse lado.
      – Vejo que a queda não o modificou Kennedy.
      – A sua dedicação foi sublime, meu rapaz. Salvou-nos,  porque o Vitória ia cair no lago e
      assim ninguém se salvaria.

      –  Mas  se  tal  dedicação,  como  o  senhor  prefere  chamar    ao  meu  tombo,  salvou-os,  não  é
      verdade que me salvou também a mim, visto que aqui estamos todos três de perfeita  saúde?
      Creio que em vista disto nada há a censurar!
      – Nunca nos entenderemos com este rapaz  volveu o  caçador.
      – O melhor meio de nos entendermos  replicou Joe   é não falarmos mais do caso. O que
      passou, passou, bom  ou mau já não se pode remediar.

      – Teimoso!  tornou o doutor rindo. Pelo menos vai  contar-nos as suas peripécias.
      – Se fazem questão! Mas antes vou preparar este gordo pato para o comermos, pois pelo visto
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