Page 142 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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o senhor Dick não  perdeu tempo.
      – Parece que sim, Joe.
      – Vamos então ver como é que uma caça de África se  comporta em estômagos europeus.

      acrescentou
      O pato foi logo submetido à chama do maçarico e depois  lentamente saboreado. Joe devorou-
      lhe uma boa parte, como  pessoa que não come há vários dias. Depois da chá e dos grogues,
      pôs os companheiros ao corrente das suas aventuras.
      Falava com certa emoção, encarando os acontecimentos com a sua habitual filosofia. O doutor
      não pôde impedir-se de apertar-lhe várias vezes a mão, sempre que sentia o dignoservidor

      mais preocupado com a salvação do amo do que com a sua própria. A propósito da submersão
      da ilha dos biddiomahs, explicou-lhe a freqüência do fenômeno no lago Tchad.
      Enfim, Joe, continuando o seu relato, chegou ao momento em que, atolado no pântano, soltara
      derradeiro grito de desespero.
      –  Considerei-me  perdido,  meu  amo    disse  ele  ,  e  meus    pensamentos  eram  para  o  senhor.
      Rompi a debater-me. Como?  Não sei dizer. O certo é que estava resolvido a não me  deixar
      engolir sem discussão, quando a dois passos de mim  avisto uma ponta de corda recentemente

      cortada. Consegui  fazer um derradeiro esforço e de qualquer modo agarrei o  cabo. Puxei, ele
      resistiu.  Icei-me  e  finalmente  pus  pé  em  terra  firme.  No  extremo  da  corda,  encontrei  uma
      âncora...  Ah! meu amo! ela bem merece o nome de âncora da salvação, se o senhor não vê
      inconveniente nisto. Reconheci-a,  era uma âncora do Vitória. O senhor tinha baixado naquele
       ponto! Segui a direção da corda, que por sua vez me apontou  a direção do balão e depois de

      novos  esforços  consegui  sair    do  pântano.  Com  a  coragem  recuperei  as  fôrças  e  caminhei
       grande parte da noite, afastando-me do lago. Cheguei, enfim,  à orla de floresta imensa. Ali,
      dentro de um cercado, alguns  cavalos pastavam pacificamente. Há ocasiões na vida em que
       todo o mundo sabe montar a cavalo, não é? Não perdi um  minuto a refletir, saltei para o
      lombo de um deles e eis-nos  correndo à desfilada em direção ao norte. Não lhes falarei  das
      cidades  que  não  vi,  nem  das  aldeias  que  evitei.  Não.   Atravessei  campos  lavrados,  pulei
      sebes,  saltei  paliçadas,  fustigando  o  animal,  excitando-o.  Alcancei  o  limite  das  terras
       cultivadas. Bem, o deserto! Nada mau. Pelo menos verei  melhor à minha frente, e de mais

      longe. Esperava sempre  avistar o Vitória, correndo ao mesmo rumo. Nada. Ao cabo  de três
      horas  fui  cair  como  idiota  num  acampamento  de    árabes! Ah!  que  caçada!  ...  Olhe,  senhor
      Kennedy, um caçador não pode saber o que é uma caçada, se por sua vez  não foi objeto de
      caça!  Em  todo  caso,  se  me  permite,  aconselho-o  a  não  experimentar.  Meu  cavalo  caía  de
      canseira,  estavam-me seguindo de perto. Tombo e salto para a garupa de um árabe. Eu não lhe

      queria mal nenhum e até espero  que ele não me guarde rancor por havê-lo esganado! Mas eu
        tinha-os  visto!  ...  O  resto  já  os  senhores  sabem.  O  Vitória  chegou  perto  de  mim  e  fui
      arrebatado do chão, como cavaleiro que atravessa uma argola com a lança. Razão tinha eu  de
      contar com os senhores! Como vê, doutor Fergusson, é tudo muito simples. Não há nada mais
      natural no mundo, e estou  pronto a recomeçar se isto lhe puder ser de alguma utilidade.  De
      resto, como já lhe disse, meu amo, não vale a pena tornar  a falar disto.
      –  Meu  bravo  Joe!    respondeu  o  doutor  comovido.  Tínhamos  razão  em  confiar  na  sua

      inteligência e destreza!
      – Ora, senhor! basta seguir os acontecimentos para fugirmos às dificuldades. O mais certo,
      como vê, ainda é aceitar  as coisas como elas se apresentam.
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