Page 144 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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O NIGER





      A jornada de dezessete de maio foi tranqüila e sem  qualquer novidade. O deserto recomeçou.
      Vento  regular  levava  o  Vitória  para  sudoeste,  sem  desviá-lo  para  a  direita  ou    para  a
      esquerda. A sua sombra traçava na areia linha rigorosamente reta.
      Antes da partida, o doutor mandara renovar prudentemente a provisão de água, temendo não
      poder  descer  nas    terras  infestadas  de  tuaregues  aueliminianos.  A  planície,  colocada  a

      seiscentos  metros  acima  do  nível  do  mar,  deprimia-se    para  o  sul.  Os  viajantes,  tendo
      percorrido a rota de Agadés  a Murzuk, tantas vezes batida dos pés dos camelos, alcançaram
      ao  entardecer  dezesseis  graus  de  latitude  e  quatro  graus    e  cinqüenta  e  cinco  minutos  de
      longitude, após terem transposto trezentos e cinqüenta quilômetros de grande monotonia.
      Durante o dia, Joe aprontou as derradeiras peças de  caça que apenas tinham recebido preparo
      sumário e, à ceia,  foi servido um assado de narcejas muito apetitoso. Como o  vento estivesse

      de feição, o doutor resolveu prosseguir a viagem durante a noite, que a lua ainda quase cheia
      tornava  resplandecente.
      O Vitória ergueu-se à altura de cento e sessenta metros  e, no decorrer da travessia noturna de
      cerca de cento e vinte  quilômetros, nem o leve sono de uma criança teria sido perturbado.
      No  domingo  de  manhã,  nova  mudança  na  direção  do    vento,  que  soprava  para  noroeste.
      Algumas aves sulcavam  os ares e, no horizonte, bando de abutres que felizmente se manteve
      afastado.

      A vista daquelas aves levou Joe a cumprimentar o amo  pela idéia dos dois balões.
      – Onde estaríamos nós  disse ele  com um único invólucro? O segundo balão é como a chalupa
      de um navio.  Em caso de naufrágio sempre há possibilidade de salvamento.
      – Tem razão, amigo. Apenas com a diferença de que a  chalupa preocupa um pouco, pois não
      vale o navio.
      – Que quer dizer com isso?  perguntou Kennedy.

      – Quero dizer que o novo Vitória não vale o antigo.  Ou porque o tecido já está muito gasto, ou
      porque a gutapercha se derreteu ao calor da serpentina, observo certo desperdício de gás. Até
      aqui  não  é  grande  coisa,  mas  enfim  não    se  pode  desdenhar.  Estamos  com  tendência  para
      baixar e para  manter-me sou obrigado a dilatar mais o hidrogênio.
      – Diabo!  exclamou Kennedy  para isso não vejo remédio.
      –  Realmente  não  existe,  caro  Dick.  Por  isto,  faríamos    melhor  apressando-nos  e  evitando
      mesmo as paradas noturnas.

      – Estamos ainda longe da costa?  perguntou Joe.
      – Que costa, rapaz? Podemos saber onde o acaso nos  levará? Tudo o que posso dizer é que
      Tombuctu se acha  ainda a oitocentos quilômetros a oeste.
      – Quanto tempo levaremos a chegar lá?
      – Se o vento não nos desviar muito, conto avistar a cidade terça-feira à tarde.
      – Então  acrescentou Joe, apontando longa fila de animais e homens que serpenteavam em

      pleno deserto , sempre  chegaremos antes daquela caravana.
      Fergusson  e  Kennedy  debruçaram-se  e  avistaram  enorme    aglomeração  de  seres  de  toda
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