Page 14 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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REPERCUSSÃO





      Do projeto no dia seguinte, em sua edição de quinze de janeiro, o Daily Telegraph publicava o
      seguinte:
      "O segredo das vastas solidões da África vai ser enfim  conhecido. Um novo Édipo vai dar-
      nos a chave do enigma  que os sábios de sessenta séculos não descobriram ainda.  Outrora,
      descobrir as nascentes do Nilo não passava de tentativa insensata, de irrealizável quimera.

      O doutor Barth, o doutor Livingstone e os capitães Burton  e Speke abriram três grandes vias à
      civilização moderna: o  primeiro, seguindo o caminho traçado por Denham e Clapperton até o
      Sudão. O segundo, multiplicando as suas investigações desde o cabo da Boa Esperança até a
      baía  do  Zalnbeze.  Os  últimos,  finalmente,  em  virtude  da  descoberta  dos  grandes  lagos
      interiores. No ponto de interseção destas três  linhas, onde ainda não pôde chegar viajante
      algum, fica o  coração da África. É para ele que devem convergir todos os esforços.

      Os trabalhos daqueles valentes soldados da milícia cientifica vão conjugar-se com a tentativa
      audaz do doutor Samuel Fergusson, cujas descobertas já por muitas vezes os nossos leitores
      têm apreciado.
      Este intrépido descobridor propõe-se atravessar em balão  toda a África, de leste a oeste. Se
      estamos  bem  informados,    o  ponto  de  partida  desta  viagem  inaudita  deve  ser  a  ilha
      de Zanzibar, em frente à costa oriental. Só à Providência é lícito  saber qual será o ponto da
      chegada.

      A  proposta  desta  expedição  científica  foi  ontem  dirigida    oficialmente  à  Real  Sociedade
      Geográfica. Votou-se a quantia  de duas mil e quinhentas libras para os gastos da empresa.
      Contamos  ter  os  nossos  leitores  em  dia  com  as  notícias    deste  cometimento,  que  não  tem
      precedentes nos fastos geográficos.”
      Como  é  fácil  de  imaginar,  o  artigo  teve  enorme  repercussão.  Levantaram-se  ondas  de
      incredulidade e o doutor Fergusson passou' por ser pessoa puramente quimérica.

      Mas todas as dúvidas desapareceram em breve. Iniciava-se em Londres os preparativos para
      a  viagem:  fábricas  de  Lião  haviam  recebido  importante  encomenda  de  tafetá    para  a
      construção  do  aeróstato  e  o  governo  britânico  colocava    à  disposição  do  doutor  o  navio
      Resoluto, sob o comando do  capitão Pennet.
      Surgiram  manifestações  de  estímulo  e  de  felicitações.  As    minúcias  do  empreendimento
      apareceram com destaque em  diversas publicações. Um jornal alemão, em artigo assinado,
      procurou demonstrar enfaticamente as possibilidades da viagem, suas probabilidades de êxito,

      a natureza dos obstáculos  a ser enfrentados e as imensas vantagens da locomoção por  via
      aérea.  Censurou  apenas  o  ponto  de  partida,  julgando    mais  acertada  a  partida  de  Macuá,
      pequeno porto da Abissínia, de onde Jaime Bruce, em 1768, partira à procura das nascentes
      do Nilo.
      Os jornais do mundo inteiro e todas as publicações científicas relatavam o fato em todos os
      seus aspectos.

      Apostas consideráveis foram feitas em Londres como em  toda a Inglaterra sobre a existência
      real ou fictícia do doutor  Fergusson, sobre a própria viagem, que, segundo alguns, não seria
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