Page 16 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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O SEGREDO DO DOUTOR Fergusson





      O doutor Fergusson tinha um amigo. Não se tratava de  repetição de sua personalidade, de
      alter ego, pois não pode  existir amizade entre dois seres absolutamente idênticos.
      Contudo,  se  possuíam  qualidades,  aptidões  e  temperamentos  distintos,  em  Dick  Kennedy  e
      Samuel Fergusson  parecia pulsar um só coração, o que, longe de perturbá-los, agradava-os.
      Dick Kennedy era escocês em toda a extensão da palavra. Franco, resoluto, obstinado. Vivia

      na pequena cidade de Leith, arrabalde de Edimburgo. Dedicava se algumas vezes  à pesca,
      mas,  na  realidade,  era  consumado  caçador.  Era  tido  como  excelente  atirador.  Conseguia
      acertar na lâmina de uma  faca e dividi-la em duas partes tão espantosamente iguais que,  se
      fossem a seguir colocadas em balança, mostrariam diferença mínima de peso. Era homem alto,
      elegante, desembaraçado e parecia dotado de força hercúlea. Tinha a pele bronzeada pelo sol,
      olhos  vivos  e  negros,  natural  atrevimento,  de    modo  que  sua  figura  irradiava  bondade,

      simpatia e solidez.
      A amizade iniciara-se na índia, quando ambos integravam  o mesmo regimento. Enquanto Dick
      se dedicava à caça de  tigres e elefantes, Samuel concentrava-se nas plantas e nos insetos.
      Jamais tiveram ocasião de salvar a vida um do outro,  nem de se auxiliarem em qualquer outra
      tarefa. Daí a amizade inalterável. Se o destino os separou algumas vezes, reuniu-os sempre a
      simpatia.
      Depois  que  regressaram  à  Inglaterra,  foram  freqüentemente  separados  pelas  longínquas

      expedições do doutor. Mas  quando este voltava, tratava logo de dedicar parte do seu tempo
      ao amigo escocês.
      Dick falava do passado, Samuel preparava o futuro.  Um olhava para diante, outro para trás. O
      espírito  inquieto    de  Fergusson  estava  sempre  em  contraste  com  a  completa  placidez  de
      Kennedy.
      Depois  da  sua  viagem  ao  Tibet,  o  doutor  esteve  perto    de  dois  anos  sem  falar  em  novas

      explorações. Dick chegou  a pensar que havia conseguido serenar o instinto de viagens  e as
      tendências aventureiras do seu amigo.
      Receava  que  as  aventuras  acabassem  mal,  mais  tarde  ou    mais  cedo.  Não  se  viaja
      impunemente entre antropófagos e  feras. Kennedy queria levar Samuel a desistir de novas
      aventuras, afirmando que, ele já tinha feito bastante para a ciência e demais para a gratidão
      humana.
      O  doutor  não  respondia.  Ficava  pensativo  e  passava  secretos,  ou  experimentando,  noites

      entregue a cálculos singulares mecanismos, com que fim ninguém sabia. Pressentia-se que seu
      cérebro  amadurecia  grande  pensamento.    Que  será  que  anda  planejando?    pensou
      Kennedy,  quando  o  amigo  o  deixou  para  voltar  a  Londres,  no  mês  de  janeiro. A  resposta
      chegou-lhe certa manhã, através do artigo do Daily Telegraph.
      – Meu Deus!  exclamou ele. O homem está doido!  Querer atravessar a África em balão! Não
      faltava mais nada!  Aí está no que ele andava a pensar há dois anos!

      O  bom  Kennedy  acompanhava  as  suas  exclamações  com    outros  tantos  murros  na  própria
      cabeça.
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