Page 17 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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A insinuação de sua criada, de que aquilo poderia não ser mais que mistificação, respondeu:
– Então eu não o conheço? Viajar pelo ar? Disto só ele se lembraria. Parece que tem inveja
às águias! Mas não pode ser e eu hei de dissuadi-lo. Se o deixassem, seria capaz de partir
para a lua!
Na tarde daquele mesmo dia, Kennedy, meio inquieto, meio exasperado, tomou o trem em
direção a Londres, onde chegou no dia seguinte.
Três quartos de hora depois chegava à porta da pequena habitação do doutor. Subiu as
escadas e anunciou-se com cinco murros vigorosos na porta.
Foi o próprio Fergusson que veio abrir.
– Dick! disse ele, sem se mostrar muito admirado. Eu mesmo.
– Você, em Londres, por ocasião das belas caçadas de inverno?
– Sim, aqui estou.
-– E que o trouxe aqui?
– Vim impedir uma loucura tremenda.
– Uma loucura? repetiu o doutor.
– E verdade o que diz este jornal? perguntou Kennedy, mostrando-lhe o exemplar do Daily
Telegraph.
– Ah! E disso que estavas falando? Esses jornais são bem indiscretos! Mas vamos sentar, meu
caro Dick.
– Não quero sentar-me. Pretende mesmo fazer essa viagem?
– Claro que sim. Os preparativos já estão adiantados e eu...
– Os seus preparativos! Mas onde estão eles, que os quero esmigalhar, que os quero fazer em
pedaços.
O escocês mostrava-se realmente encolerizado.
– Calma, calma, meu caro amigo. Compreendo sua irritação. Tudo porque não lhe participei
os meus novos projetos...
– E tem coragem de dizer que são novos projetos!
– Tenho estado ocupadíssimo explicou Samuel, ignorando a interrupção. Tenho tido um
milhão de coisas para fazer. Mas esteja certo de que eu pretendia escrever-lhe antes de
partir...
– Não interessa...
– Eu pretendia convidá-lo para ir comigo.
O escocês deu um salto que faria inveja a muito cabrito. Ah, é? exclamou. Então quer que
nos enviem a ambos para o hospício?
– Pode acreditar que eu contava com sua companhia, meu caro Dick.
Kennedy permanecia estupefato.
– Escute-me durante dez minutos disse tranqüilamente o doutor e quando acabar de falar irá
agradecer-me.
– Está falando sério mesmo?
– Seríssimo.
– E se eu não quiser ir com você? Vai querer, sim.
... chegava a porta da pequena habitação do doutor.
– E se não quiser?
– Nesse caso... eu irei só.

