Page 18 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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– Vamos sentar  disse o caçador  e conversar calmamente. Já que você está falando sério, vale
      a pena discutir o assunto.
      – Vamos discuti-lo almoçando?

      Os  dois  amigos  instalaram-se,  um  em  frente  do  outro,  em    pequena  mesa,  entre  pilhas  de
      sanduíches e enorme bule.
      – Meu caro Samuel  disse o caçador , o seu projeto  é insensato! É absurdo e impraticável!
      – Só veremos depois da experiência.   Nem devia haver experiência.
      – E pode dizer-me por quê?
      – E os perigos, Samuel? Os obstáculos de toda sorte?

      – Os obstáculos  respondeu Fergusson com seriedade   foram criados para serem vencidos.
      Quanto aos perigos,  quem poderá evitá-los? Tudo na vida é perigoso. Pode constituir perigo
      o  simples  ato  de  uma  pessoa  sentar-se  à  mesa    ou  colocar  o  chapéu  na  cabeça.  Assim,
      devemos considerar  o que está para chegar como já chegado, encarar o futuro  como presente,
      pois, afinal de contas, o futuro não passa do  presente um pouco mais adiante.
      – É...  disse Kennedy, erguendo os ombros. Você é  sempre fatalista!
      – Sim, sempre, mas no bom sentido da palavra. Escute,  não nos preocupemos com o que a

      sorte nos reserva. Lembre-se do velho ditado: "O homem que nasceu para a forca  jamais
      morrerá afogado!”
      Não  havia  o  que  responder,  mas  Kennedy  apresentou  uma    série  de  argumentos  que  não
      encontraram ressonância.
      – Mas, enfim  disse ele após uma hora de discussão ,  se você deseja mesmo atravessar a

      África, se isso é imprescindível para sua felicidade, por que não se utiliza das rotas comuns?
      – Por quê?  repetiu o doutor, animando-se. Porque até  agora todas as tentativas fracassaram!
      Desde  Mungo-Park,  assassinado  no  Níger,  até  Vogel,  que  desapareceu  no  Vadaí,  desde
      Oudney, morto em Murmur, Clapperton, morto em  Saccatou, até o francês Maizan, cortado em
      pedaços;  desde  o    major  Laing,  assassinado  pelos  tuaregues,  até  Roscher,  massacrado  em
      princípio de 1860, numerosas vítimas foram inscritas  no martirológio africano! Porque lutar
      contra os elementos,  contra a fome, a sede, a febre, contra os animais ferozes e  contra tribos
      ainda mais ferozes é impossível! Porque o que  não se pode fazer de uma forma faz-se de

      outra! Para terminar, porque, quando não se pode passar pelo meio, o jeito é passar  pelo lado
      ou por cima)
      – O pior é que não é só por cima  replicou Kennedy  o mas pelo alto!
      – E daí?  retrucou o doutor com o maior sangue-frio.  Não tenho nada a temer. Tomei minhas
      precauções para  evitar a queda do meu balão. No entanto, se surgir algum  defeito, o máximo

      que poderá acontecer é que eu desça à  terra firme como qualquer outro explorador. Mas tenho
      certeza de que meu balão não me faltará.
      – Terá de contar com essa possibilidade.
      – Não, meu caro Kennedy. Não pretendo desfazer-me  dele antes de minha chegada à costa
      ocidental  da  África.  Com    ele,  tudo  é  possível.  Sem  ele,  estarei  sujeito  aos  perigos
      e  obstáculos  naturais  das  outras  expedições.  Com  ele,  nem  o    calor,  nem  as  torrentes,  as
      tempestades, o simum, os climas  insalubres ou os animais selvagens me fazem medo! Se fizer

        muito  calor,  subo.  Se  fizer  frio,  desço.  Ultrapasso  montanhas    e  transponho  precipícios.
      Atravesso rios e domino tempestades.  Atravesso as torrentes, como pássaro! Caminho sem
      me cansar,  e paro sem ter necessidade de repouso! Pairo sobre as cidades  novas! Vôo com a
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