Page 19 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
P. 19

rapidez  do  furacão,  tanto  nas  maiores  altitudes,  como  a  trinta  metros  da  terra,  e  o  mapa
      africano se  desenrolará aos meus olhos no maior Atlas do mundo!
      Kennedy começava a sentir-se empolgado, mas o quadro  evocado por Fergusson já lhe dava

      vertigem. Contemplava  Samuel com misto de admiração e temor. Já se sentia oscilando no
      espaço.
      – Bem, vejamos, meu caro Samuel.  disse ele. Então  você descobriu meio de dirigir balões?
      – De maneira alguma. Isso é uma fantasia.
      – Mas nesse caso você irá...
      – Aonde a Providência quiser levar-me. Mas do oriente para o ocidente.

      – Por que isso?
      – Porque pretendo utilizar-me das monções, pois a direção é constante.
      – É isso mesmo!  exclamou Kennedy, após instante de  reflexão. As monções... sim, claro... na
      verdade pode-se...  há qualquer coisa de.. .
      – Qualquer coisa não, meu amigo  interrompeu Fergusson. Há tudo. O governo inglês colocou
      um navio à minha  disposição. Ficou também acertado que três ou quatro embarcações irão
      cruzar a costa ocidental na ocasião presumível de  minha chegada. Em três meses, no máximo,

      estarei  em  Zanzibar,  onde  providenciarei  o  enchimento  do  meu  balão.  De  lá,  nós  nos
      lançaremos...
      – Nós?!  exclamou Dick.
      – Ainda tem alguma objeção a fazer, meu caro? Pode  falar...
      – Alguma objeção? Eu poderia encontrar mil objeções,  mas diga-me uma coisa. Você espera

      ver o país, subir e descer  quando tiver vontade, mas não poderia fazer nada disso sem perder
      gás. Até agora não se encontraram outros meios de  proceder e foi justamente isso que sempre
      impediu as longas  caminhadas pela atmosfera.
      – Meu caro amigo, dir-lhe-ei apenas isto: não vou perder uma só molécula de gás, nem mesmo
      um simples átomo.   E poderá descer quando bem entender?   Quando bem entender.
      – E como conseguirá isso?
      – É segredo, meu amigo. Confie em mim e que meu  emblema seja o seu: Excelsior!
      – Vá lá, Excelsior!  repetiu o caçador, que não sabia  uma palavra de latim.

      Mas estava firmemente decidido a opor-se, por todos os  meios ao seu alcance, à partida do
      amigo. Fingiu estar de  acordo e contentou-se em observar. Quanto a Samuel, foi  cuidar dos
      preparativos.
   14   15   16   17   18   19   20   21   22   23   24