Page 26 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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UM CRIADO IMPOSSÍVEL
O doutor tinha um criado que se chamava Joe. Era excelente rapaz. Possuía ótimo caráter,
estava sempre de bom humor, confiava cegamente no patrão e cumpria suas ordens com
perfeição, às vezes até antes de serem dadas. Se fosse feito por encomenda o criado não
poderia ter saído melhor. Fergusson tinha-o a par de toda a sua vida e com bastante razão.
Joe era honesto e excepcional! Decidia seu jantar, tinha o mesmo gosto do patrão, arrumava
as malas, não se esquecia nem das meias nem das camisas, guardava as chaves e os segredos
e jamais tirava proveito da situação!
Tinha Fergusson na mais alta conta, acolhendo com respeito e confiança toda e qualquer
decisão do doutor. Quando este falava, ninguém deveria ser tolo em contestar. Tudo o que o
patrão pensava era justo. Tudo o que dizia, sensato. Tudo o que ordenava, praticável. Tudo o
que empreendia, possível. Tudo o que concluía, admirável. Seria mais fácil picar Joe em
pedaços que faze-lo mudar de opinião a respeito do doutor.
Quando o doutor concebeu o plano de atravessar a África pelo ar, para Joe isto passou a ser
fato consumado, sem qualquer obstáculo. No instante em que Fergusson resolvera partir, para
ele era o mesmo que já tivesse chegado, em companhia de seu fiel servidor, pois o notável
rapaz, sem que nada lhe tivesse sido comunicado, sabia perfeitamente que tomaria parte na
viagem.
Aliás, iria de fato prestar inestimáveis serviços com sua inteligência e sua maravilhosa
agilidade. Se resolvessem nomear professor de ginástica para os símios do jardim Zoológico,
sem dúvida Joe obteria o lugar, se assim o entendesse. Saltar, trepar, correr a toda
velocidade, executar mil estripulias impossíveis, para ele era brincadeira.
Se Fergusson era a cabeça e Kennedy o braço, Joe devia ser a mão. Já acompanhara o patrão
em várias outras viagens e possuía alguns laivos de ciência à sua maneira. Contudo,
distinguia-se sobretudo por uma filosofia agradável, um otimismo encantador. Achava tudo
fácil, lógico, natural e, conseqüentemente, jamais se lastimava ou praguejava. Entre outras
qualidades, seu poder e alcance de visão eram surpreendentes. Mas nem por isto era
orgulhoso.
Em vista de toda sua confiança no doutor, não é de se admirar que tivesse inúmeras
discussões com Kennedy, naturalmente conservando sempre a devida deferência.
Um duvidava, o outro acreditava. Um era a prudência clarividente, o outro a confiança cega.
O doutor encontrava-se, assim, entre a dúvida e a crença e cabe aqui explicar que não o
preocupava nem uma coisa nem outra.
– E então, senhor Kennedy dizia o criado.
– O que é que há, Joe?
– Parece que se está aproximando o momento de embarcarmos para a lua.
– Você quer dizer para a terra da lua, não é? É um pouco mais perto, mas os perigos não são
menores.
– Perigo? Com um homem como o doutor Fergusson?
– Longe de mim tirar suas ilusões, mas o que ele pretende é coisa de doido. Ele não fará a

