Page 23 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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CARTA GEOGRÁFICA AFRICANA





      O doutor Fergusson apressava ativamente os preparativos  da partida. Dirigia pessoalmente a
      construção do aeróstato,  examinando certas modificações sobre as quais guardava silêncio
      absoluto.
      Havia  já  muito  tempo  que  se  dedicava  ao  estudo  do  idioma  árabe  e  de  vários  dialetos
      sudaneses,  conseguindo  rápidos  progressos  graças  às  suas  naturais  tendências  poliglóticas.

       Enquanto esperava, seu amigo caçador não o abandonava um instante. Sem dúvida, temia que
      o  doutor  alçasse  vôo  sem    avisá-lo.  Continuava  insistindo  naquele  assunto  com  os  mais
      persuasivos  argumentos,  que  absolutamente  não  persuadiam    Samuel  Fergusson  e  sempre
      terminavam  em  súplicas  patéticas  que  pouco  o  impressionavam.  Aos  poucos,  Dick  foi
      sentindo que o amigo escapava de suas mãos.
      O pobre escocês era digno de compaixão. Não podia mais  contemplar o firmamento sem ficar

      aterrorizado. Quando dormia, assaltavam-no horríveis pesadelos, em que se via despencando
      de  incomensuráveis  alturas.  Devemos  acrescentar  que,  durante  os  pesadelos,  caiu  da  cama
      algumas vezes. Sua primeira preocupação foi a de mostrar a Fergusson forte contusão  que
      sofrera na cabeça por ocasião de uma das quedas.
      – E note bem  ajuntou com simplicidade , foi só de  meio metro de altura! Nada mais que meio
      metro e um galo destes!
      Imagine! A insinuação, cheia de melancolia, não conseguiu comover o doutor.

      – Nós não vamos cair  limitou-se este a declarar.
      – E se cairmos?
      – Não vamos cair.
      Kennedy não teve o que responder.
      O que mais exasperava Dick era que o doutor parecia  fazer total abstração da personalidade
      do  amigo.  Considerava-o  irrevogavelmente  destinado  a  tornar-se  seu  companheiro    aéreo.

      Quanto a isso não restava a menor dúvida. Samuel  usava e abusava do pronome da primeira
      pessoa do plural:
      Nós avançaremos..., nós estaremos perto de..., nós partiremos... Fazia o mesmo com o adjetivo
      possessivo no singular: Nosso balão..., nossa barquinha..., nossa exploração.  E também no
      plural: Nossos preparativos..., nossas descobertas... nossas subidas...
      Dick vibrava com aquilo, embora estivesse firmemente  decidido a não partir. Contudo, não
      desejava contrariar demais o amigo. Sem se aperceber bem, já fizera vir sorrateiramente de

      Edimburgo algumas roupas variadas e suas melhores espingardas de caça.
      Um dia, após ter reconhecido que com muita sorte poderia ter uma oportunidade em mil de ser
      bem  sucedido,    simulou  aquiescer  à  vontade  do  doutor.  Porém,  a  fim  de    evitar  a  viagem,
      lançou  mão  de  uma  série  de  pretextos.  Criticou  a  utilidade  da  expedição,  bem  como  sua
      oportunidade.    Aquele  descobrimento  das  nascentes  do  Nilo  seria  realmente    necessário?
      Iriam na verdade trabalhar para o bem da humanidade? Quando, afinal, as tribos da África

      fossem civilizadas, sentir-se-iam elas com isso mais felizes? Quem sabe,  talvez, a civilização
      tivesse lá chegado antes que à Europa?  Além disso, não se poderia esperar um pouco mais? A
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