Page 29 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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O BALÃO





      Havia  muito  tempo  que  Fergusson  vinha  preocupando-se  com  os  pormenores  de  sua
      expedição. Como é fácil imaginar,  foi o balão, maravilhoso veículo destinado a transportá-
      los  pelos ares, o objeto de sua constante solicitude.
      Logo de início, para não ter de fazer o aeróstato com  grandes dimensões, resolvera enchê-lo
      com gás hidrogênio, que  é catorze vezes e meia mais leve que o ar. Não só a produção  deste

      gás  era  fácil,  como  era  o  tipo  que  já  dera  os  melhores    resultados  nas  experiências
      aerostáticas.
      O doutor, após cálculos exatos, descobriu que, para levar  os objetos indispensáveis à viagem
      e  seu  aparelho,  devia  carregar  peso  de  mil,  oitocentos  e  catorze  quilos.  Era  necessário
        portanto,  descobrir  qual  seria  a  força  ascensional  capaz  de    erguer  este  peso  e,
      conseqüentemente,  a  respectiva  capacidade  Um  peso  de  mil,  oitocentos  e  catorze  quilos  é

      representado por deslocação de ar de mil, seiscentos e sessenta e um  metros cúbicos, o que
      equivale a dizer que mil, seiscentos e  sessenta e um metros cúbicos pesam aproximadamente
      mil,  oitocentos e catorze quilos.
      Dando  ao  balão  esta  capacidade  e  enchendo-o,  em  lugar    de  ar,  com  gás  hidrogênio,  que,
      catorze vezes e meia mais  leve, pesa apenas cento e vinte e cinco mil, cento e noventa  e um
      quilos!, resta uma quebra de equilíbrio, ou seja, diferença de quase mil, seiscentos e noventa
      quilos.  É  justamente    esta  diferença  entre  o  peso  do  gás  contido  no  balão  e  o  peso  do  ar

      circunvizinho que constitui a força ascensional do  aeróstato.
      Todavia, se fossem introduzidos no balão os mil, seiscentos e sessenta e um metros cúbicos de
      gás a que nos referimos, ele ficaria totalmente cheio, o que não deve acontecer,  já que, à
      medida que o balão atinge as camadas menos densas  de ar, o gás que ele contém tende a
      dilatar-se,  não  tardando    assim  a  romper  o  envoltório.  Por  esta  razão,  só  dois  terços    dos
      balões são ocupados pelo gás.

      Mas o doutor, em virtude de certo projeto que só ele  conhecia, decidiu encher o aeróstato
      somente  pela  metade,    dando-lhe  capacidade  quase  dupla,  uma  vez  que  era  necessário
       carregar mil, seiscentos e catorze metros cúbicos de hidrogênio.
      Preparou-o  sob  a  forma  alongada,  que,  como  é  sabido,  é    a  mais  conveniente.  O  diâmetro
      horizontal foi de dezesseis  metros e meio e o vertical, de vinte e quatro metros e setenta e
      cinco centímetros. Obteve, desta forma, um esferóide cuja capacidade elevava-se em cifras
      redondas a três mil duzentos e quarenta metros cúbicos.

      Se  Fergusson  tivesse  podido  utilizar  dois  balões,  suas  probabilidades  de  êxito  seriam
      maiores. Se um se rompesse no  ar, poderia, desfazendo-se do contrapeso, sustentar-se por
      meio  do outro. Entretanto, a manobra de dois aeróstatos torna-se  imensamente difícil, por ter-
      se de conservá-los em idêntica  força ascensional.
      Após longas reflexões, por disposição engenhosa, reuniu  as vantagens oferecidas por dois
      balões  sem  sofrer  os  inconvenientes  que  o  fato  acarretaria.  Construiu  dois  de  dimensões

        diferentes,  colocando  um  no  interior  do  outro.  O  balão  exterior,  com  as  dimensões  atrás
      citadas, continha outro menor,  da mesma forma, que não media mais que quinze metros de
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