Page 21 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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onde definhou durante oito longos meses, em meio a vexames do xeque, a maus tratos e
miséria. Entretanto, a presença de um cristão não pôde mais ser tolerada na cidade, pois os
fulas ameaçavam sitiá-la. Assim, o doutor partiu a dezessete de março de 1854, refugiando-se
na fronteira, onde permaneceu por trinta e três dias na mais completa privação. Regressou a
Cano em novembro, tornou a entrar em Kouka e de lá retomou o caminho de Denham, depois
de quatro meses de espera. Após rever Trípoli, em fins de agosto de 1855, chegou a Londres
a seis de setembro, sem nenhum de seus companheiros.
Foi esta a arrojada viagem de Barth.
Fergusson anotou cuidadosamente que ele interrompera a caminhada a quatro graus de latitude
norte e dezessete de longitude oeste.
Vejamos agora o que fizeram os tenentes Burton e Speke, na África oriental.
As várias expedições que subiram o Nilo jamais conseguiram atingir as nascentes misteriosas
daquele rio. Segundo o relatório do médico, Fernando Verne, a expedição, tentada em 1840,
sob os auspícios de Mehemet-Ali, interrompeu-se em Gondocoro, entre os paralelos quatro e
cinco, norte. Em 1855, Brun-Rollet, nomeado cônsul da Sardenha, no Sudão oriental, partiu
de Cartum e, com a identidade suposta de Yacoub, negociante de borracha e marfim, chegou a
Belênia, além de quatro graus. Pouco depois regressava enfermo a Cartum, onde veio a
morrer em 1857.
Nem o doutor Peney, chefe do serviço médico egípcio, que num pequeno vapor alcançou um
grau abaixo de Gondocoro, morrendo de esgotamento em Cartum, nem o veneziano Miani, que,
contornando as cataratas situadas mais abaixo de Gondocoro, atingiu o paralelo dois, nem o
negociante maltês André Debono, que estendeu ainda mais sua expedição sobre o Nilo,
conseguiram ultrapassar o intransponível limite.
Em 1859, Guilherme Lejean, encarregado de missão pelo governo francês, foi ter a Cartum
pelo Mar Vermelho e tomou outro navio no Nilo com tripulação de vinte e um homens e vinte
soldados. Todavia, não conseguiu ir além de Gondocoro, correndo ainda os maiores perigos
em meio aos negros, que se achavam em plena revolta. A expedição dirigida por Escayrac de
Lauture tentou igualmente sem sucesso chegar às famosas nascentes.
Aquele marco funesto sempre detivera o avanço dos viajantes. Já outrora os enviados de Nero
haviam atingido o grau nove de latitude. Como vemos, em dezoito séculos, não se avançaram
senão cinco ou seis graus, ou melhor, cerca de quinhentos quilômetros.
Diversos viajantes tentaram chegar às nascentes do Nilo, partindo de algum ponto da costa
oriental da África. De 1768 a 1772 o escocês Bruce partiu de Maçua, porto de Abissínia,
percorreu o Tigre, visitou as ruínas de Axum, viu as nascentes do Nilo onde elas não se
encontravam e não obteve nenhum resultado real. Em 1844, o doutor Kraph, missionário
anglicano, fundou estabelecimento na costa Zanguebar e descobriu, em companhia do
reverendo Rebmann, duas montanhas a quinhentos quilômetros da costa, que são os montes
Quilimanjaro e Quênia.
Em 1845, o francês Maizan desembarcava sozinho em Bagamaio, em frente de Zanzibar,
chegando a Deja-la-Mhora, onde pereceu entre cruéis suplícios por ordem do chefe da
localidade.
Em 1859, no mês de agosto, o jovem viajante Roscher, de Hamburgo, partiu com caravana de
mercadores árabes, atingiu o lago Níassa e ali foi assassinado enquanto dormia.
Finalmente, em 1857, os tenentes Burton e Speke, ambos oficiais do exército de Bengala,

