Page 80 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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–  Então,  não  há  nada  demais,  meu  senhor.  Quando  se    vive  quatro  mil  anos,  a  coisa  mais
      natural do mundo é ter  belo desenvolvimento.
      Pouco depois, a floresta já cedera lugar a extensa reunião  de choupanas dispostas em círculo

      em volta de urna praça.  Ao centro, erguia-se uma única árvore. Examinando-a, disse  Joe:
      – Bem! Se há quatro mil anos aquela árvore produz  flores assim, não hei de ser eu que lhe
      dou os parabéns.
      E apontava monstruoso sicômoro, cujo tronco desaparecia  todo sob um montão de ossadas
      humanas. As flores de que falava Joe eram as cabeças recentemente cortadas, suspensas  de
      punhais cravados na casca.

      – É a árvore de guerra dos canibais!  disse o doutor.  Os índios arrancam o couro cabeludo e
      os africanos a cabeça  inteira.
      – Questão de modo!  replicou Joe.
      Mas já a aldeia de sanguinolentas cabeças desaparecia no  horizonte, substituída por outra,
      mais além, oferecendo espetáculo não menos repugnante. Eram os cadáveres meio devorados,
      esqueletos desfazendo-se em pé, membros humanos espalhados, tudo abandonado para servir
      de pasto às hienas e  aos chacais.

      – São decerto corpos de criminosos, que, tal como se faz  na Abissínia, são deixados aos
      animais ferozes, os quais, depois de os terem estraçalhado a dentada, acabam de devorá-los
       em sossego.
      Joe, com a excelente vista de que tão bem se servia, notou alguns bandos de aves de rapina
      que pairavam no horizonte.

      –  São  decerto  corpos  de  criminosos,  que,  tal  como  se  faz    conhecido  com  o  óculo. Aves
      magníficas cujo vôo é tão rápido quanto o nosso.
      – Deus nos livre dos seus ataques!  acudiu o doutor.  São mais perigosas para nós que as feras
      ou as tribos selvagens.
      – Ora!  volveu o caçador  nós as escorraçaríamos a  tiro.
      – Prefiro não ter de recorrer à sua perícia. O tafetá do  nosso balão não resistiria a uma das
      suas  bicadas.  Felizmente,    acho  essas  temíveis  aves  mais  assustadas  do  que  atraídas  pela
       nossa máquina.

      –  Tive  uma  idéia!    exclamou  Joe. Aliás,  hoje  estou    cheio  delas.  Se  conseguíssemos  uma
      parelha de águias vivas,  nós poderíamos atrelá-la à barquinha para nos carregarem  pelo ar!
      A idéia foi apresentada com seriedade  disse o doutor  , mas acho pouco viável com animais
      tão insubmissos.
      – Ah! Mas a gente daria um jeito  replicou Joe. Em  lugar de freio, elas seriam guiadas por

      antolhos  para  limitar    a  sua  vista.  Com  um  olho  tapado,  iriam  para  a  direita  ou    para  a
      esquerda: com os dois tapados, parariam.
      – Desculpe, meu rapaz, mas ainda prefiro vento favorável às suas águias atreladas. Dá menos
      despesas com alimentação e é um pouco mais seguro.
      – Está bem, patrão, mas que a idéia é boa, isso é.
      Era meio-dia. Havia algum tempo que o Vitória se mantinha em marcha mais moderada. O
      chão caminhava-lhe por  baixo, já não fugia.

      Bruscamente, gritos e silvos feriram os ouvidos dos viajantes, que se debruçaram, avistando,
      em  planície  aberta,  um  espetáculo  emocionante.  Duas  tribos  em  luta  batiam-se
      encarniçadamente,  fazendo  voar  aos  ares  nuvens  de  flechas.  Os  combatentes,  ávidos  de  se
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