Page 82 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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ASSALTO NOTURNO





      A noite ia-se fazendo escura e o doutor não pôde reconhecer a região. Prendeu a âncora a uma
      árvore  muito    alta,  cuja  massa  confusa  mal  distinguia  na  sombra.  Conforme    o  seu  hábito,
      escolheu o quarto das nove horas e, à meia-noite, Dick veio substituí-lo.
      – Vigie bem, Dick! Vigie com toda a cautela.   Há alguma novidade?
      – Não, mas pareceu-me ouvir uns vagos rumores por  baixo de nós. Não sei onde o vento nos

      trouxe e um acréscimo de prudência não nos pode prejudicar.
      – Ouviu por acaso o rugido de alguma fera?
      – Não, pareceu-me coisa bem diferente. Enfim, ao menor  alarma não deixe de acordar-nos.
      – Fique descansado.
      Depois de ter aplicado atentamente o ouvido uma derradeira vez, o doutor, não percebendo
      nada, jogou-se sobre a  manta e não tardou a adormecer.

      O céu estava forrado de espessas nuvens, mas nem um  sopro agitava o ar. O Vitória, seguro
      apenas  por  uma  âncora,    não  experimentava  a  menor  oscilação.  Kennedy,  acotovelado    ao
      rebordo  da  barca  de  modo  a  espreitar  o  maçarico  em  atividade,  considerava  a  calma
      escuridão.  Interrogou  o  horizonte  e,  como  sucede  aos  espíritos  inquietos  ou  prevenidos,
        julgava  por  vezes  surpreender  indecisas  claridades.  Houve    um  momento  em  que  julgou
      mesmo avistar uma a duzentos passos de distância. Mas foi apenas um relâmpago, depois do
       qual não viu mais nada. Era talvez uma dessas sensações luminosas que o olhar experimenta

      nas profundas escuridões.
      Kennedy sossegou e ia voltando a sua indecisa contemplação, quando agudo silvo atravessou
      os ares. Seria o grito de  um animal, ou de uma ave noturna? Viria de lábios humanos?
      Dick, consciente da gravidade da situação, esteve a  ponto de acordar os companheiros, mas
      refletiu que, fossem  homens ou animais, estavam fora de alcance. Lançou um  olhar às suas
      armas e com o óculo de noite mergulhou outra  vez no espaço.

      Em breve, pareceu-lhe entrever por baixo do balão formas  vagas que corriam furtivamente
      para  a  árvore.  Um  raio  de    luar  que  se  filtrou  de  repente  entre  duas  nuvens  revelou-lhe
        distintamente  um  grupo  de  vultos  que  se  agitavam  no  escuro.    Ocorreu-lhe  à  lembrança  a
      aventura dos cinocéfalos e ele  pousou a mão no ombro do doutor que logo acordou.
      – Cuidado!  murmurou Kennedy  falemos em voz baixa.
      – Há alguma coisa?  Sim, acordemos Joe.
      Quando Joe se levantou, o caçador contou o que tinha visto.

      – Outra vez esses malditos macacos!  disse o rapaz.   Talvez, mas precisamos ter cautela.
      – Joe e eu  propôs Kennedy  vamos descer até à árvore pela escada.
      –  E  enquanto  isso    acrescentou  o  doutor    eu  tomarei  medidas  para  podermos  subir
      rapidamente.
      Certo.
      – Desçamos  tornou Joe.

      –  Só  recorram  às  armas  em  caso  extremo    acudiu  ainda  o  doutor    não  há  vantagem  em
      revelarmos a nossa presença nestas paragens.
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