Page 84 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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– O pobre infeliz não deve estar longe  interveio Joe   porque...
      – Socorro! Socorro!  tornou a voz mais enfraquecida.
      – Que bárbaros!  exclamou Joe nervoso. E se o matarem durante a noite?

      – É verdade, Samuel  interveio Kennedy, por sua vez,  segurando a mão do doutor , e se eles o
      matarem durante  a noite?
      –  Não  é  provável,  amigos.  Em  geral  os  selvagens  matam    os  prisioneiros  à  luz  do  dia,
      necessitam do sol!
      – E se eu aproveitasse a escuridão para esgueirar-me até esse desgraçado?  insistiu o escocês.
      – Eu vou com você, senhor Dick.

      – Devagar, amigos, devagar! Esse intuito faz-lhes honra  ao coração e à coragem, mas desse
      modo todos seríamos  prejudicados,  inclusive aquele que desejamos salvar.
      – Como assim?  volveu Kennedy. Esses brutos fugiram,  espalharam-se, não voltarão mais.
      – Dick, peço-lhe que me obedeça. Eu trabalho para  a salvação comum. Se por um acaso se
      deixasse surpreender,  tudo estaria perdido!
      – Mas o infeliz que aguarda, que tem esperança, não  receberá nenhuma resposta? Ninguém irá
      socorrê-lo? Ele vai  pensar que os sentidos o enganaram, que nada ouviu!...

      – Podemos tranqüilizá-lo  disse o doutor Fergusson.
      E de pé, em meio à escuridão, fazendo das mãos um  porta-voz, gritou, com energia, na língua
      do desconhecido:
      – Quem quer que esteja aí, tenha confiança! Três amigos  cuidam dos meios de salvá-lo.
      Respondeu-lhe terrível clamor, abafando decerto a resposta do prisioneiro.

      –  Estão  matando-o!  Vão  matá-lo!    gritou  Kennedy.    A  nossa  intervenção  só  serviu  para
      apressar-lhe o suplício!  Precisamos agir!
      – Mas como, Dick? Que pretende fazer nesta escuridão?   Oh! se fosse dia!  exclamou Joe.
      – Sim, e se fosse dia?  interrogou o doutor em tom singular.
      –  Nada  mais  simples,  Samuel    respondeu  o  caçador.    Desceria  à  terra  e  dispersaria  essa
      canalha a tiro.   E você, Joe?  tornou a perguntar o doutor.
      –  Eu,  meu  amo,  agiria  com  mais  prudência,  sugerindo    ao  prisioneiro  que  fugisse  em
      determinada direção.   E como lhe daria o aviso?

      –  Por  meio  desta  flecha  que  apanhei  no  ar  e  à  qual    prenderia  um  bilhete,  ou  mais
      simplesmente  falando-lhe  em    voz  alta,  visto  que  essa  pretalhada  não  compreende  a  nossa
       língua.
      – Todos esses planos são impraticáveis, amigos. A maior  dificuldade para o infeliz seria
      salvar-se, mesmo admitindo  que conseguisse iludir a vigilância dos seus carrascos. O seu

       projeto, caro Dick, com muita audácia e aproveitando o  terror produzido pelas nossas armas
      de  fogo,  talvez  desse  algum  resultado.  Mas  se  falhasse,  estaria  perdido  e  ficariam    duas
      pessoas  a  salvar,  em  vez  de  uma.  Não!  Devemos  colocar  do  nosso  lado  todas  as
      probabilidades de êxito e agir de forma  diferente.
      –  Mas  agir  sem  perda  de  tempo    replicou  o  caçador.      Talvez!    respondeu  Fergusson,
      sublinhando a palavra.   Meu amo será capaz de dissipar estas trevas?   Quem sabe?
      – Ah! Se fizesse isso, eu o proclamaria o primeiro sábio  do mundo.

      O doutor calou-se durante alguns instantes, refletindo.  Seus dois companheiros observavam-
      no com emoção, excitados pela extraordinária ocorrência. Fergusson não demorou a retomar a
      palavra:
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