Page 83 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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Os dois responderam com um aceno e deixaram-se escorregar em silêncio até à árvore, onde
tomaram posição no garfo de fortes ramos em que se encravara a âncora. Ficaram alguns
minutos escutando, mudos e imóveis entre a folhagem. Percebendo ligeiro roçar na casca da
árvore, Joe tocou o braço do escocês:
– Não está ouvindo?
– Estou, a coisa aproxima-se.
– E se for uma serpente? O silvo que o senhor ouviu.... Não! Tinha qualquer coisa de
humano. Por mim prefiro os selvagens. Esses répteis enjoam-me. O ruído parece aumentar
tornou Kennedy alguns instantes depois.
– Sim! Estão subindo...
– Espreita desse lado que eu me encarrego deste. Está bem.
Achavam-se ambos isolados num galho dominante, sobranceiro à altura da floresta, que se
chama baobá. A escuridão, aumentada pela espessura da folhagem, era impenetrável.
Contudo, Joe, inclinando-se para o ouvido de Kennedy e indicando-lhe a parte inferior da
árvore, disse:
– São negros.
Alguns sons trocados em voz baixa chegaram mesmo até aos viajantes. Joe apontou a
espingarda. Esperei acudiu Kennedy.
Alguns selvagens tinham, com efeito, escalado o baobá e surgiam de todos os lados colando-
se aos ramos como répteis, trepando com lentidão e segurança. Denunciavam-se já pelas
emanações dos corpos, untados de um óleo infecto. Duas cabeças não tardaram a surgir aos
olhos de Kennedy, justamente à altura do ramo que ocupavam.
– Atenção! disse Kennedy. Fogo!
O duplo tiro ressoou como trovão, perdendo-se entre gritos de dor. Num momento a horda
inteira desapareceu.
Mas, em meio aos uivos, percebera-se um grito singular, inesperado, impossível! Uma voz
humana proferia claramente estas palavras em francês:
– Socorro! Socorro!
Kennedy e Joe, estupefatos, regressaram à barca o mais depressa que puderam.
– Vocês ouviram? perguntou o doutor. Com toda a certeza!
– Um francês nas mãos destes bárbaros? Algum viajante!
– Um missionário, talvez!
– Algum desgraçado que estão assassinando ou martirizando acrescentou o caçador.
Fergusson debalde tentava disfarçar a emoção.
Não pode haver dúvida disse ele. Um desventurado francês caiu nas garras destes selvagens.
Mas não sairemos daqui sem ter feito o que for humanamente possível para salvá-lo. Pelos
nossos tiros ele decerto adivinhou socorro inesperado, intervenção providencial. Não
desanimaremos dessa derradeira esperança. Estão de acordo?
– Inteiramente, Samuel, e prontos a obedecê-lo.
– Combinemos então a manobra e ao amanhecer tentaremos livrá-lo.
– Mas como vamos afugentar esses miseráveis negros? perguntou Kennedy.
– É evidente para mim volveu o doutor , pelo modo como eles fugiram, que não conhecem as
armas de fogo. Devemos, pois, tirar proveito desse pavor, mas esperar que amanheça para
agir, quando então traçaremos o nosso plano de ataque de acordo com a disposição do lugar.

