Page 85 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
P. 85
– Aqui está o meu plano disse ele. Dispomos de cem quilos de lastro, visto que os sacos que
trouxemos ainda estão intactos. Admitindo que esse prisioneiro, sem dúvida esgotado pelos
sofrimentos, pese tanto quanto um de nós, ainda nos restam trinta quilos a jogar fora para
subirmos mais depressa.
– E como pretende manobrar? perguntou Kennedy.
– Vejamos: decerto admite que se eu conseguir chegar até ao prisioneiro e jogar fora
quantidade de lastro igual ao seu peso, em nada altero o equilíbrio do balão. Mas nessa
altura, se desejo obter ascensão mais rápida para escapar à horda de negros, necessito
empregar meios mais enérgicos que o maçarico. Ora, libertando-me desse excedente de lastro
no momento preciso, tenho a certeza de que subiremos com grande rapidez.
– Não há dúvida.
– Mas por outro lado há um inconveniente: é que, para descer mais tarde, precisarei perder
uma quantidade de gás proporcional ao excedente de lastro que tiver jogado fora e o gás é
coisa preciosa. De qualquer modo, não podemos lastimar tal perda quando se trata da
salvação de um homem.
– Tem razão, Samuel, devemos sacrificar tudo para salvá-lo.
– Nesse caso, mãos à obra e tragam os sacos para borda da barquinha, a fim de que eles
possam ser jogados fora imediatamente.
– E a escuridão?
– Oculta os nossos preparativos e não se dissipará senão quando eles estiverem terminados.
Tratem de pôr as armas ao alcance da mão, pois talvez sejam necessários alguns tiros. A
carabina dispara um, mais quatro das duas espingardas, mais doze dos dois revólveres, ao
todo dezessete tiros que podem ser disparados num quarto de minuto. Talvez nem precisemos
recorrer a tanto estrondo. Estão prontos?
– Prontíssimos respondeu Joe.
Os sacos estavam dispostos, as armas carregadas.
– Bem disse o doutor olho em tudo. Joe fica encarregado de jogar o lastro e Dick de raptar o
prisioneiro, mas não façam nada sem esperar minhas ordens. Joe, comece por soltar a âncora
e suba imediatamente para a barca.
Joe deixou-se escorregar pelo cabo, tornando a aparecer decorridos alguns instantes. O
Vitória, liberto, flutuava no ar, quase imóvel.
Enquanto isso, o doutor certificou-se da presença de quantidade suficiente de gás na câmara
de mistura para alimentar, em caso de necessidade, o maçarico, sem que houvesse
necessidade de recorrer durante algum tempo à ação da pilha de Bunsen. Retirou os dois fios
condutores perfeitamente isolados que serviam para a decomposição da água e em seguida,
procurando no seu saco de viagem, encontrou dois pedaços de carvão talhados em ponta que
fixou na extremidade de cada fio.
Os dois amigos olhavam-no sem compreender, mas nada diziam. Quando o doutor acabou o
trabalho, foi para o meio da barca e, tomando em cada mão um dos carvões, aproximou-lhes
as pontas. Uma intensa e deslumbrante claridade se produziu com insustentável fulgor entre as
duas pontas de carvão, um jato imenso de luz elétrica varou literalmente a escuridão noturna.
– Oh! Meu amo! bradou Joe.
– Silencio! acudiu o doutor.

