Page 112 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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Fergusson  teve  depois  de  restabelecer  o  equilíbrio  do    aeróstato  e  Joe  viu-se  obrigado  a
      sacrificar  parte  do  seu  precioso  mineral.  Com  a  saúde  tinham-lhe  voltado  às  idéias  de
      ambição,  de  modo  que  fez  mais  de  uma  careta  antes  de  obedecer  ao  amo.  Mas  este

      demonstrou-lhe a impossibilidade de  levantar peso tão considerável, dando-lhe a escolher
      entre  a    água  e  o  ouro.  Joe  não  hesitou  mais  e  lançou  à  areia  forte    quantidade  dos  seus
      preciosos pedregulhos.
      –  Deixo-os  aí  para  os  que  vierem  depois  de  nós    disse    ele.  Ficarão  bem  admirados  de
      encontrar a fortuna em semelhante lugar.
      – Oh!  exclamou Kennedy  e se algum sábio viajante  vier a encontrar aqui estas pedras?

      – Não tenha dúvida, meu caro Dick, de que há de  ficar muito surpreendido e publicará a sua
      surpresa em numerosos volumes! Ainda ouviremos falar algum dia de uma jazida de quartzo
      aurífero no meio dos areais da África.
      A idéia de mistificar talvez algum sábio consolou o excelente moço, fazendo-o sorrir.
      Durante  o  resto  do  dia,  em  vão  o  doutor  esperou  mu  dança  na  atmosfera.  A  temperatura
      elevou-se e, se não fossem as sombras do oásis, teria sido insuportável. O termômetro marcou
      ao  sol  sessenta  graus. Autêntica  chuva  de  fogo  cruzava  o  ar.  Foi  o  mais  intenso  calor  que

      tinham suportado. Joe dispôs como na véspera o acampamento da noite e durante os quartos
      do doutor e de Kennedy nenhum novo incidente se produziu. Mas pelas três horas da manhã,
      quando Joe estava de vigia, a temperatura baixou subitamente, o céu  cobriu-se de nuvens e a
      escuridão aumentou.
      – Alerta!  gritou Joe acordando os dois companheiros   alerta! Aí está o vento!

      – Enfim!  desabafou o doutor contemplando o céu  é uma tempestade! Ao Vitória! Ao Vitória!
      Foi o tempo de chegarem. O Vitória curvava-se já sob  a violência do furacão e arrastava a
      barquinha, que sulcava  a areia. Se por acaso parte do lastro tivesse caído ao chão, o balão
      teria partido e, com ele, para sempre, a esperança  de o tornarem a encontrar.
      Mas o lesto Joe correu a toda pressa e segurou a barquinha, enquanto o aeróstato se deitava na
      areia  com  risco  de  rasgar-se.  O  doutor  tomou  o  seu  lugar  habitual,  acendeu  o  maçarico  e
      lançou fora o excesso de peso.
      Os viajantes lançaram derradeiro olhar ás árvores do  oásis, que vergavam sob a tempestade

      e, em breve, apanhando o vento leste a setenta metros do solo, desapareceram na escuridão.
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