Page 117 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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OS POMBOS INCENDIARIOS





      No dia seguinte, onze de maio, o Vitória prosseguiu na sua jornada. Os viajantes tinham nele a
      confiança que um  marinheiro tem no seu navio.
      De furiosas tempestades, calores tropicais, decolagens perigosas e descidas mais perigosas
      ainda, de tudo em toda a  parte ele escapara com felicidade. Pode-se dizer que Fergusson  o
      guiava  com  um  gesto.  Por  isso,  embora  ignorando  o  ponto    de  chegada,  o  doutor  já  não

      alimentava dúvida sobre o êxito da viagem. Apenas, naquelas terras de bárbaros e fanáticos  a
      prudência  obrigava-o  a  tomar  as  mais  severas  precauções,    de  modo  que  recomendou  aos
      companheiros que ficassem de  olho à espreita, em tudo e a toda a hora.
      O vento levou-os um pouco mais para o norte e pelas  nove horas avistaram a grande aldeia de
      Mosfeia, erguida  em eminência por sua vez encaixada entre duas altas montanhas. Gozava de
      posição inexpugnável, para a qual estreita  vereda, entre um pantanal e um bosque, servia de

      único  acesso.
      Naquele momento um xeque, acompanhado de escolta a  cavalo, em trajes de vivas cores e
      precedido de tocadores de trombetas e batedores que afastavam a ramaria à sua passagem, ia
      entrando na aldeia.
      O doutor desceu, a fim de contemplar aqueles indígenas  de mais perto, mas à medida que o
      balão crescia aos seus olhos houve manifestação de profundo terror e aqueles valentes não
      tardaram a desenvolver toda a agilidade das suas pernas ou das dos seus cavalos.

      Apenas o xeque ficou e, tomando o seu comprido mosquete, armou-o e esperou com altivez. O
      doutor aproximou-se  à distância de cinco metros e na sua mais bela voz dirigiu-lhe saudações
      em árabe.
      Aquelas palavras descidas do céu o xeque desmontou,  prosternou-se na poeira do caminho e
      o doutor não pôde  desviá-lo da sua adoração.
      – É impossível  disse ele  que esses homens não nos  tomem por seres sobrenaturais, visto que

      ao verem chegar os  primeiros europeus os consideraram de raça sobre-humana.  E quando
      esse  xeque  referir  o  encontro  há  de  certamente    exagerá-lo  com  todos  os  recursos  de
      imaginação árabe. Calculem agora o que as lendas farão de nós algum dia.
      – Não me parece vantajoso  respondeu o caçador. Do  ponto de vista da civilização, seria
      preferível passarmos por  simples homens. Isto daria a eles idéia bem diferente do poderio
      europeu.
      – De acordo, meu caro Dick, mas que podemos fazer?  Ainda que explique minuciosamente

      aos sábios desta nação  o mecanismo de um aeróstato, eles não saberão compreendê-lo  e
      admitirão sempre qualquer intervenção sobrenatural.
      – Meu amo  interveio Joe , o senhor falou dos primeiros europeus que exploraram estas terras.
      Quais foram  eles?
      – Meu rapaz, estamos justamente na rota do major DeIlham. Foi na própria Mosfeia que o
      recebeu o sultão de  Mandara. Tinha deixado o Bornu e acompanhava o xeque  em expedição

      contra  os  felatas,  quando  assistiu  ao  ataque  à    aldeia,  que  resistiu  valentemente  com  suas
      flechas  às  balas    árabes  e  pôs  em  fuga  as  tropas  do  xeque.  Eram  tudo  pretextos  para
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