Page 113 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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UMA PAISAGEM MAGNÍFICA
Desde o instante da partida, os viajantes marcharam com grande rapidez. Apressavam-se em
deixar aquele deserto que por pouco não lhes fora fatal.
As nove e um quarto da manhã foram avistados alguns sintomas de vegetação, ervas flutuando
sobre aquele mar de areia, que lhes anunciavam, como a Cristóvão Colombo, a proximidade
da terra: tufos verdes apontavam, timidamente, entre pedregulhos que se diriam os rochedos
daquele oceano. Colinas ainda baixas ondulavam no horizonte, de vagos contornos esfumados
em vasto nevoeiro. A monotonia ia desaparecendo. O doutor saudou com alegria a nova região
e como marinheiro de vigia esteve a ponto de gritar:
– Terra! Terra!
Uma hora depois, o continente desdobrava-se a seus olhos, com aspecto ainda selvagem,
porém menos árido e nu. Algumas árvores perfilavam-se contra o céu pardacento.
– Será que estamos em país civilizado? ponderou Kennedy.
– Civilizado, senhor Dick? Duvido. Não vimos gente até agora. Ainda estamos na região dos
negros, doutor Fergusson?
– Ainda, Joe, até chegarmos à terra dos árabes.
– Árabes, patrão? Árabes de fato, com camelo e tudo?
– Camelos. Não, meu amigo. São raros e quase ninguém os conhece por estas bandas. Para
encontrá-los será preciso subir um pouco para o norte.
Que pena! Por que, Joe?
– Porque, se o vento nos fosse contrário, poderiam ajudar-nos muito.
– Como?
– Foi uma idéia que me veio, patrão. Poderíamos atrelá-los à barquinha para sermos
rebocados por eles. O que acha disto?
– Alguém já teve essa idéia antes de você, meu caro Joe. Um escritor francês de muito
espírito, se bem que... num romance. Na história, os viajantes com o respectivo balão, fazem-
se arrastar por camelos. Aí chega um leão que engole o reboque, devora os camelos, toma o
lugar destes e assim por diante. Está vendo que tudo isso é fantasia e nada tem a ver com o
nosso gênero de locomoção.
Joe, um tanto encabulado ao verificar que sua idéia não era inédita, começou a dar tratos à
bola para imaginar quem poderia devorar o leão. Como não o conseguisse pôs-se de novo a
observar a região.
Um lago, não muito grande, estendia-se diante dele, com anfiteatro de colinas que não
chegavam a merecer o nome de montanhas. Ao longe, serpenteavam vales numerosos e
fecundos e árvores de toda espécie erguiam para o céu as ramagens entrelaçadas.
Predominavam as palmeiras, com folhas de cinco metros de comprimento e caules eriçados
de agudos espinhos. O bômbax lançava ao vento que passava a fina penugem das suas
sementes. O perfume ativo do pendanus, que os árabes chamam de kenda, embalsamavam os
ares até a zona que o Vitória atravessava. O mamoeiro de folhas espalmadas, a estercúlia
que produz as nozes do Sudão, os baobás e as bananeiras completavam a flora luxuriante das

