Page 107 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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Balançava a cabeça para a direita e para a esquerda,  como fera enjaulada. De repente, os
      olhos do caçador deram com a carabina, cuja coronha ultrapassava a borda da barca.
      – Ah!  gritou ele erguendo-se com esforço sobre-humano. E correndo para a arma, desvairado,

      louco, levou-lhe  o cano à boca.
      – Senhor Kennedy! Senhor Kennedy!  acudiu Joe, lançando-se atrás dele.
      – Deixe-me! Vá embora!  rugiu o escocês.
      Ambos lutaram com furor.
      – Saia daqui, ou o matarei!  repetia Kennedy.
      Mas Joe agarrara-se a ele com todas as fôrças. Lutaram,  sem que o doutor parecesse dar por

      isso,  durante  cerca  de  um  minuto.  Subitamente,  durante  a  luta,  a  carabina  disparou  e    ao
      estrondo da detonação o doutor ergueu-se como espetro, olhando em redor.
      O olhar animou-se-lhe de repente, estendeu a mão para  o horizonte e, com voz que nada tinha
      de humana, gritou:   Ali! Ali! Olhem!...
      Havia tal energia no seu gesto que Joe e Kennedy se separaram e ambos se puseram a olhar.
      O areal agitava-se como oceano em fúria, em dia de  tempestade. Ondas de areia rebentavam
      umas  sobre  as  outras    em  meio  à  poeira  intensa.  Enorme  coluna  vinha  de

      sudeste redemoinhando com extrema rapidez. O sol desapareceu atrás  da nuvem opaca, cuja
      sombra  desmedida  se  estendia  até  ao    Vitória.  Grãos  de  areia  fina  fustigavam  com  a
      mobilidade de  moléculas líquidas e a maré montante subia pouco a pouco.  Firme raio de
      esperança brilhou nos olhos de Fergusson.
      – O simuml  bradou ele.

      – O simuml  repetiu Joe sem compreender bem.
      – Tanto melhor!  exclamou Kennedy com intenso ódio   tanto melhor! vamos morrer!
      – Tanto melhor!  replicou o doutor  vamos viver, pelo  contrário!
      Começou a deitar fora a areia que lastrava a barquinha  e os companheiros, compreendendo-o
      enfim, correram a  ajudá-lo.
      – E agora, Joe  disse o doutor , jogue fora também  trinta quilos do seu mineral.
      Joe não hesitou, embora experimentasse qualquer coisa  como rápido pesar. O balão ergueu-
      se.

      – Já era tempo!  disse o doutor.
      O simum chegava com efeito com a velocidade de relâmpago. Um pouco mais e o Vitória
      seria  esmagado,  despedaçado,  aniquilado. A  imensa  tromba  ia  alcançá-lo  e  cobriu-o    com
      nuvem de areia.
      – Mais lastro fora!  gritou o doutor a Joe.

      – Pronto!  respondeu este, atirando enorme bloco de  quartzo. O Vitória saltou rapidamente
      acima da tromba mas,  atingido pela forte deslocação de ar, foi arrastado com velocidade
      incalculável  acima  daquele  mar  espumante.  Samuel,    Dick  e  Joe  emudeceram,  olhando  e
      esperando,  refrescados    pelo  vento  daquele  turbilhão.  Às  três  horas  a  tormenta  cessou.   A
      areia, ao cair, formara inumerável quantidade de montículos e o céu recobrara a sua primitiva
      tranqüilidade.
      O  Vitória,  volvendo  à  imobilidade,  planava  diante  de  um    oásis,  ilha  coberta  de  verdes

      árvores que subiram à superfície daquele oceano.
      – Água! ali existe água!  gritou o doutor.
      E  imediatamente,  abrindo  á.  válvula  superior,  deu  passagem  ao  hidrogênio  e  desceu
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