Page 110 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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OS SONHOS DE Joe





      Depois de uma ceia reconfortante, passaram os viajantes  noitada deliciosa sob a ramagem
      fresca das mimosas.
      Kennedy percorreu em todos os sentidos a pequena área  em que se achavam, dando batida nas
      matas ao redor. Eram  eles os únicos seres animados daquele paraíso terrestre. Estenderam as
      cobertas e ali passaram noite sossegada que os fez esquecer as atribulações anteriores.

      No dia seguinte, sete de maio, o sol brilhava em todo o  seu esplendor, mas não podiam seus
      raios  atravessar  a  espessa  cortina  de  sombra.  Como  havia  mantimentos  em  quantidade
       suficiente, resolveu o doutor esperar vento favorável.
      Joe trouxera o seu fogão portátil. Dava tratos à bola  para inventar iguarias e gastava água com
      imensa prodigalidade.
      – Que estranha sucessão de sofrimentos e de prazeres!   exclamou Kennedy. Esta abundância

      depois daquela privação!  Este luxo em seguida à miséria! Ah, meus amigos! Andei bem  perto
      da loucura!...
      – Meu caro Dick  ponderou o doutor , sem o Joe,  você não estaria aí a discorrer sobre a
      instabilidade das coisas  humanas.
      – Obrigado, meu bom amigo!  disse Kennedy ao apertar a mão de Joe.
      – Não há de quê  respondeu este. Prefiro, porém, que  não tenha ocasião de retribuir-me o
      favor.

      – Como é fraca a nossa natureza!  retrucou Fergusson.  Deixar-nos abater por tão pouco!
      – Por tão pouca água, é o que o senhor quer dizer,  patrão! Como a água é necessária à vida!
      – Não resta dúvida. Resiste-se mais tempo sem comer  do que sem beber.
      – Acredito. Em caso de necessidade, a gente come qualquer coisa que encontra, até mesmo o
      próprio semelhante, se  bem que não deixe de ser indigesta a refeição!
      – Os selvagens não se importam com isso  disse  Kennedy.

      – Sim, mas são selvagens. Estão habituados a comer  carne crua. Eu ficaria com o estômago
      embrulhado!
      – De fato, isso é tão repugnante  retrucou o doutor   que ninguém deu crédito às histórias dos
      primeiros exploradores que voltaram da África. Contaram que várias tribos  se alimentavam
      de carne crua e ninguém admitiu o fato. Foi  nessas circunstâncias que Jaime Bruce se meteu
      em estranha  aventura.
      – Conte como foi, patrão temos tempo de sobra  disse  Joe estendendo-se preguiçosamente na

      relva fresca.
      –  Pois  não.  Jaime  Bruce  era  um  escocês  do  condado  de  Stirling,  que,  entre  1768  e  1772,
      percorreu toda a Abissínia  até o lago Tiana, à procura das nascentes do Nilo. Em seguida,
      voltou à Inglaterra, onde só em 1790 publicou relato  de suas viagens. Não acreditaram em
      absoluto em suas histórias, incredulidade que é comum entre nós. Os hábitos dos  abissínios
      pareciam tão diferentes dos usos e costumes ingleses que ninguém queria dar crédito àquelas

      histórias.  Entre    outros  pormenores,  Jaime  Bruce  ousava  afirmar  que  os  povos    da  África
      oriental comiam carne crua. Revoltaram-se todos  contra isso. Que tolice! Ninguém poderia
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