Page 118 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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massacres, pilhagens e saques. O major foi completamente despojado, deixado nu, e se não
      fosse um cavalo  sob cujo ventre pôde escapar aos vencedores, em desenfreado  galope, talvez
      nunca mais regressasse a Cuca, capital do Bornu.

      – Mas quem era esse major Denham?
      – Um intrépido inglês que, de 1822 a 1824, comandou  expedição do Bornu em companhia do
      capitão  Clapperton  e  do  doutor  Oudney.  Eles  partiram  de  Trípoli  no  mês  de  março,
       alcançaram Murzuk, capital do Fezzan e, seguido o caminho  que mais tarde devia tomar o
      doutor Barth para regressar  à Europa, chegaram em dezesseis de fevereiro de 1823 a Cuca,
       perto do lago Tchad. Denham fez diversas explorações no  Bornu, no Mandara e nas margens

      orientais do lago. Enquanto isso, a quinze de dezembro de 1823, o capitão Clapperton e o
      doutor Oudney mergulhavam no Sudão até Saccatu., e Oudney acabou morrendo de canseira e
      esgotamento na  aldeia de Murmur.
      Mosfeia desaparecera havia muito do horizonte. O Mandara estendia aos olhos dos viajantes a
      sua surpreendente fertilidade, com florestas de acácias, locustas de flores vermelhas  e plantas
      herbáceas dos campos de algodoeiros e das plantações de anil. O Sari, que vai lançar-se cento
      e vinte quilômetros adiante do lago Tchad, rolava a sua corrente impetuosa. Algumas canoas

      de dezesseis metros desciam o curso  do rio e o Vitória a mais de trezentos metros do solo
      atraía  a atenção dos indígenas. Mas o vento, que até então soprara  com certa força, tendia a
      diminuir.
      – Será que outra vez nos espera alguma calmaria?  interrogou o doutor.
      – Pelo menos, meu amo, não teremos falta de água nem deserto a recear.

      – Sim, mas em compensação gente mais temível ainda.
      – Aí está uma coisa que se parece com povoação.
      – É Quernaque. Para lá nos levam os últimos sopros do vento e se nos convier poderemos
      levantar-lhe a planta exata.
      – Não vamos aproximar-nos?  perguntou Kennedy.
      – Nada mais fácil; estamos justamente por cima da aldeia. Deixe-me girar um pouco a torneira
      do maçarico e não  tardaremos a descer.
      Meia hora depois o Vitória estacionava imóvel a setenta  metros do chão.

      –  Cá  estamos  mais  perto  de  Quernaque    disse  o  doutor      do  que  o  estaria  de  Londres  um
      homem agarrado à cúpula  de São Paulo. Assim podemos ver tudo à vontade.
      A capital de Logum patenteava-se em todo o seu conjunto  como num mapa desdobrado. Era
      verdadeira cidade, com  casas alinhadas e ruas bastantes largas. No meio de vasta  praça, via-
      se mercado de escravos, com grande afluência de compradores, porque as mandarinas de pés

      e mãos de extrema pequenez são muito procuradas e colocam-se vantajosamente. A presença
      do  Vitória  causou  o  efeito  esperado.    A  princípio,  gritos,  depois  profundo  espanto.  Os
      negócios  foram abandonados, os trabalhos suspensos e todo o ruído  cessou. Os viajantes
      continuavam  em  perfeita  imobilidade,    não  perdendo  um  só  pormenor  da  populosa  cidade.
      Chegaram mesmo a vinte metros do solo.
      Então,  o  governador  de  Logum  saiu  da  sua  morada,  desdobrando  o  seu  estandarte  verde,
      acompanhado dos seus músicos, que sopravam a toda a força dos pulmões em roucos  chifres

      de búfalo. A multidão reuniu-se à sua volta. O doutor Fergusson tentou fazer-se ouvir, mas não
      o conseguiu.
      Aquela  gente  de  testa  alta  e  cabelos  de  carapinha,  nariz    quase  aquilino,  parecia  altiva  e
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