Page 119 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
P. 119
inteligente, mas a presença do Vitória inquietava-a. Viam-se cavaleiros correr em todas as
direções e em breve se tornou evidente que as tropas do governador se reuniam para dar
combate ao inimigo extraordinário. Debalde Joe desfraldou lenços de todas as cores sem
obter qualquer resultado.
Entretanto, o xeque, cercado da sua corte, reclamou silêncio e pronunciou um discurso de que
o doutor nada logrou compreender. Era árabe misturado a baguirmi. Reconheceu, apenas, pela
linguagem universal dos gestos, expresso convite para se afastarem. Bem o desejariam, mas a
falta de vento tornava impossível. A sua imobilidade exasperou o governador e os cortesãos
romperam num urro imenso para obrigar o monstro a fugir.
Eram indivíduos singulares aqueles cortesãos, com as suas cinco ou seis camisas de vivas
cores. Tinham ventres enormes, alguns dos quais até parecendo postiços. O doutor
surpreendeu os companheiros informando-os de que era essa a maneira de fazerem a corte ao
sultão. A rotundidade do abdômen era indício de ambição entre as pessoas. Aqueles gordos
homens gesticulavam e gritavam, sobretudo um deles, que devia ser primeiro-ministro caso
lhe recompensassem a proeminência. A turba dos pretos unia os seus rugidos aos gritos da
côrte, repetindo-lhe os gestos à maneira dos macacos, o que produzia movimento único e
instantâneo de milhares de braços.
A esses meios de intimidação que foram julgados insuficientes, juntaram-se outros mais
enérgicos. Soldados armados de arco e flecha foram dispostos em ordem de batalha, mas já o
Vitória se dilatava e erguia tranqüilamente para fora do seu alcance. O governador,
apanhando então um mosquete, apontou-o para o balão, mas Kennedy, que vigiava, com uma
bala da sua carabina despedaçou a arma nas mãos do xeque.
Aquele tiro inesperado produziu debandada geral. Cada qual entrou quanto antes na sua
cubata e por todo o resto do dia a cidade ficou absolutamente deserta.
Chegou a noite, o vento deixou de soprar e tiveram de permanecer imóveis a cem metros do
chão. Nenhuma fogueira brilhava no escuro, reinava silêncio de morte. O doutor redobrou de
cautela. Semelhante calma poderia esconder alguma cilada. E Fergusson tinha razão de estar
alerta. Pela meia-noite, toda a povoação surgiu como abrasada. Centenas de raios de luz
cruzavam-se como foguetes, formando redes de linhas ígneas.
– Extraordinário! exclamou o doutor.
– Deus me perdoe! acrescentou Kennedy dir-se-ia que o incêndio sobe e se aproxima de nós.
Com efeito, ao ruído de medonhos brados e detonações de mosquetes, aquela massa de fogo
erguia-se para o Vitória. Joe preparava-se para jogar lastro fora, mas Fergusson não tardou a
ter a explicação do fenômeno.
Milhares de pombos, de caudas guarnecidas de matérias combustíveis, haviam sido lançados
contra o Vitória e, assustados, subiam traçando na atmosfera os seus luminosos ziguezagues.
Kennedy iniciou descarga geral de todas as armas em meio àquela massa, mas que podia ele
contra o exército inumerável? Já os pombos cercavam a barca e o balão, cujas paredes,
refletindo a luz, pareciam cercados por rede de fogo. O doutor não hesitou e jogando fora um
bloco de quartzo colocou-se longe do alcance das perigosas aves. Durante duas horas não
cessaram de avistá-las, de um lado e outro, na escuridão, mas pouco a pouco o seu número
foi diminuindo, até que por fim desapareceram de todo.
– Agora podemos dormir sossegados disse o doutor. Para selvagens, não foi mal
concebido! observou Joe.

