Page 124 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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nossa  disposição,  fazendo  fogo  com  todas  as  armas.  Não  haverá  meio  de  destruí-los  ou
      dispersá-los? Eu por mim encarrego-me de bom número.
      –  Não  duvido  da  sua  perícia,  Dick.  De  bom  grado  considero  mortos  os  que  passarem  ao

      alcance da sua carabina.  Mas, repito, por pouco que eles ataquem o hemisfério superior do
      balão, não conseguirá vê-los. Se eles romperem o invólucro que nos sustenta, não se esqueça
      de que estamos a dez  mil metros de altura!
      Naquele instante, uma ave mais feroz veio direta ao  Vitória, de bico e garras abertas, pronta a
      despedaçá-lo.   Fogo! fogo!  gritou o doutor.
      Mal acabava de falar e já a ave, ferida de morte, caía  rolando no espaço. Kennedy apanhou

      logo uma das espingardas de dois canos e Joe levou outra à cara.
      Assustados  com  a  detonação,  os  abutres  afastaram-se  um    momento,  mas  voltaram  quase
      imediatamente à carga com  redobrada fúria. Kennedy ao primeiro disparo cortou o pescoço
      do mais próximo e Joe despedaçou a asa de outro.
      – Apenas onze  disse ele.
      Mas  então  as  aves  mudaram  de  tática  e  de  comum  acordo    elevaram-se  acima  do  Vitória.
      Kennedy olhou Fergusson.

      Apesar da sua energia e impassibilidade, este empalideceu o houve um momento de silêncio
      aterrador. Em seguida, ouviu-se um dilacerar estridente como o de seda que se rasga o a barca
      fugiu sob os pés dos viajantes.
      – Estamos perdidos!  gritou Fergusson levando os olhos  ao barômetro, que subia com rapidez.
      Depois acrescentou:

      –  Fora  o  lastro,  fora!  Em  alguns  segundos  todos  os  fragmentos  de  quartzo  tinham
       desaparecido.
      – Continuamos caindo! Esvazie as caixa-d’água, Joe!  Está ouvindo? Vamos cair no lago!
      Joe obedeceu e o doutor debruçou-se. O lago parecia vir ar seu encontro como a maré quando
      sobe.  Os  objetos  cresciam  a  olhos  vistos,  a  barca  não  estava  a  mais  de  setenta  metros  da
      superfície do Tchad.
      – As provisões! As provisões!  tornou a gritar o doutor.
      A  caixa  que  as  continha  foi  jogada  no  espaço.  A  queda  tornou-se  menos  rápida,  mas  os

      desventurados caíam sempre.   Mais! Joguem tudo fora!– gritou o doutor pela última vez.
      – Não há mais nada  respondeu Kennedy.
      – Há, sim!  interveio laconicamente Joe, persignando-se  com mão rápida.
      E atirou-se pela borda da barca.
      – Joe! Joe!  bradou Fergusson aterrado.

      Mas Joe já não o podia ouvir. O Vitória deslastrado retomou a sua marcha ascensional, subiu
      a trezentos metros nos  ares e o vento engolfando-se no invólucro murcho arrastou-o  para as
      bandas setentrionais do lago.
      – Perdido!  gritou o caçador com gesto de desespero.
      – Perdido para salvar-nos!  acrescentou Fergusson.
      o  aqueles  homens  tão  intrépidos  sentiram  duas  grossas  lágrimas  escorrer-lhes  dos  olhos.
      Debruçaram-se com o intuito  de avistar ainda o infeliz Joe, mas já estavam longe.

      – Que iremos fazer?  perguntou Kennedy.
      – Descer à terra logo que isso seja possível, Dick, e  depois esperar.
      Após travessia de mais de cem quilômetros, o Vitória  pousou numa costa deserta, ao norte do
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