Page 127 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
P. 127
Enquanto isso, Fergusson ocupou-se em fazer levantamento dos objetos conservados na barca
e procurar o equilíbrio do segundo aeróstato. Restavam quinze quilos de carne de conserva,
alguns pacotes de chá e café, cerca de seis litros de aguardente e uma caixa-d'água
completamente vazia. A carne-seca desaparecera toda.
Sabia o doutor que com a perda do hidrogênio do primeiro balão a sua força ascensional se
encontrava reduzida de mais ou menos quinhentos quilos, e teve de basear-se nesta diferença
para reconstituir o equilíbrio. O novo Vitória tinha a cubagem de dois mil, quatrocentos e
doze metros cúbicos e encerrava mil, trezentos e cinco metros cúbicos de gás. O aparelho de
dilatação parecia em bom estado e tanto a pilha como a serpentina nada haviam sofrido. A
força ascensional do novo balão era pois de mil e quinhentos quilos aproximadamente.
Somando-se o peso do aparelho, dos viajantes, da provisão de água, da barquinha e seus
acessórios, e embarcando cinqüenta galões de água e cem quilos de carne fresca, chegava-se
ao total de mil, quatrocentos e vinte quilos. Era portanto possível conduzir oitenta e cinco
quilos de lastro para os casos imprevistos e o aeróstato encontrar-se-ia equilibrado no ar
ambiente.
Foram tomadas disposições adequadas e o peso de Joe foi substituído por acréscimo de
lastro. O dia inteiro foi gasto nos diversos preparativos, que só terminaram com o regresso de
Kennedy. O caçador lograra boa colheita: vinha carregado de gansos, patos selvagens,
narcejas, cércetas e tarambolas, caça que tratou de preparar e secar. Cada peça, enfiada em
delgado espeto, foi suspensa sobre fogueira de lenha verde. Quando Kennedy, que entendia do
assunto, julgou o preparo conveniente, armazenou tudo na barquinha. No dia seguinte
completaria as suas provisões.
A noite surpreendeu os viajantes em meio daquele trabalho. Cearam carne de conserva,
biscoito e chá. A fadiga, que começara por dar-lhes apetite, trouxe-lhes também o sono. Cada
qual durante o seu quarto de vigia interrogou as trevas, imaginando por vezes ter ouvido a voz
de Joe, mas estava bem longe essa voz que tanto desejariam ouvir!
Aos primeiros raios do sol o doutor acordou Kennedy.
– Pensei muito disse ele no que devemos fazer para encontrar o nosso companheiro.
– Seja qual for o seu projeto, Samuel, aprovo-o de antemão. Fale.
– Antes de tudo, é imprescindível que Joe tenha notícias nossas.
– Evidentemente! De outro modo o digno rapaz iria julgar que o abandonamos.
– Não! Ele conhece-nos muito bem. Nunca semelhante idéia lhe ocorreria, mas precisa saber
onde estamos.
De que maneira?
– Vamos entrar na barquinha e subir.
– E se o vento levar-nos para longe?
– Tal não acontecerá, felizmente. Observe, Dick, o vento nos levará para o lago e esta
circunstância que ontem era prejudicial, é hoje propícia. Nossos esforços tenderão a manter-
nos sobre aquela vasta extensão de água durante todo o dia. Joe não poderá deixar de ver-nos
nas alturas, para onde incessantemente volverá os olhos. Talvez até consiga informar-nos do
lugar onde se encontra.
– Se estiver sozinho e livre, não há dúvida de que o fará.
– E se estiver prisioneiro continuou o doutor , como não é costume dos indígenas trancar os
seus cativos, ele há de ver-nos e compreenderá o fim das nossas buscas.

