Page 126 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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EXPLORAÇÃO DO LAGO TCHAD
No dia seguinte, treze de maio, os viajantes começaram por reconhecer a parte da costa que
ocupavam. Era uma espécie de ilha de terra firme em meio de imenso pântano. A volta
daquele pedaço de terreno sólido erguiam-se canaviais altos como as árvores da Europa e
que se estendiam a perder de vista. Aqueles pantanais inacessíveis tornavam segura a
posição do Vitória, devendo-se apenas vigiar do lado do lago. O vasto lençol de água ia-se
alargando, sobretudo, para leste e nada aparecia no horizonte, continente ou ilhas.
Os dois amigos não haviam tido coragem de falar do desventurado companheiro. Kennedy foi
o primeiro a participar as suas conjeturas ao doutor.
– Joe talvez não esteja perdido disse ele. É um rapaz esperto e um nadador como existem
poucos. Ainda o havemos de tornar a ver. Quando e como não sei, mas do nosso lado nada
esqueceremos para dar-lhe ocasião de vir ter conosco.
– Deus o ouça, Dick! volveu o doutor emocionado. Faremos tudo o que for possível para
tornar a encontrar o nosso amigo. Comecemos por orientar-nos, mas antes de mais nada
desembaracemos o Vitória desse invólucro exterior que não tem mais utilidade. Simplesmente
nos libertamos de peso considerável, de trezentos e vinte quilos, o que vale bem a pena.
O doutor e Kennedy puseram mãos à obra. Tiveram grandes dificuldades, pois foi necessário
arrancar pedaço a pedaço o tafetá muito resistente e cortá-lo em pequenas tiras para
desprende-lo das malhas da rede. O rasgão produzido pelo bico das aves de rapina estendia-
se por vários centímetros.
A operação levou pelo menos quatro horas, mas, por fim, o balão interno, completamente
livre, parecia nada ter sofrido. O Vitória ficou diminuído de um quinto, diferença sensível
bastante para surpreender Kennedy.
– Será que chega? perguntou ele ao doutor.
– Quanto a isso não se preocupe. Eu restabelecerei o equilíbrio e, se o nosso pobre Joe
voltar, retomaremos com ele a costumada rota.
– Quando se iniciou a nossa queda, Samuel, se a memória não me falha, devíamos estar perto
de uma ilha.
– Também me recordo, mas tal ilha, como em geral as do Tchad, é com toda a certeza
habitada por alguma raça de piratas e assassinos. Os selvagens foram talvez testemunhas da
nossa catástrofe e se Joe lhes caiu nas mãos não vejo o que será dele a menos que a
superstição o proteja.
– Repito que ele é homem para livrar-se de apertos. Tenho confiança na sua habilidade e
inteligência.
– Assim o espero. Agora vá caçar nos arredores, mas sem se afastar muito. Precisamos
renovar os víveres cuja maior parte foi sacrificada.
– Está bem, Samuel, não ficarei muito tempo ausente.
Kennedy apanhou uma espingarda de dois canos e avançou através das altas ervas para um
matagal próximo. Freqüentes detonações logo informaram o doutor de que a caçada estava
sendo proveitosa.

