Page 131 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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–  Sim,  havemos  de  voltar,  ainda  que  para  tanto  devamos    abandonar  o  Vitória,  ainda  que
      tenhamos de alcançar a pé  o lago Tchad e travar relações com o sultão de Bornu! Os  árabes
      não guardam talvez má impressão dos primeiros europeus.

      – Irei também Samuel  respondeu o caçador com energia. Podes contar comigo! Ainda que
      tenhamos de renunciar  ao fim da viagem! Joe sacrificou-se por nós, devemos sacrificar-nos
      por ele! Essa resolução levantou um pouco o ânimo dos dois homens que se sentiram fortes da
      mesma idéia. Fergusson empregou todos os meios para se lançar numa corrente contrária  que
      os aproximasse do Tchad; mas foi impossível, e a mesma  descida se tornava impraticável
      num terreno despido e com  um furacão daquela violência.

      O Vitória atravessou então o país dos tibues, transpôs o Belad el Djérid, região inóspita que
      forma  a  orla  do  Sudão,    e  penetrou  no  deserto  de  areia  sulcado  de  longas  pegadas  de
        caravanas.  A  derradeira  linha  de  vegetação  logo  se  confundiu    com  o  céu  no  horizonte
      meridional,  não  longe  do  principal    oásis  daquela  parte  da  África,  cujos  cinqüenta  poços
      ficam  à sombra de árvores maravilhosas. Mas foi impossível parar.  Um acampamento árabe,
      com tendas de panos raiados, e alguns  camelos que estendiam na areia as suas cabeças de
      víbora    animavam  aquela  solidão,  O  Vitória  passou  como  estrela  candente,  percorrendo

      distância de cento e quinze quilômetros  em três horas, sem que Fergusson lograsse orientar-
      lhe a corrida.
      – Não podemos parar!  disse ele  nem podemos descer! Não há uma árvore, um relevo de
      terreno. Iremos atravessar o Saara? Positivamente, Deus está contra nós!
      Falava assim com intenso desespero, quando viu ao norte  as areias do deserto erguerem-se

      em densa nuvem, revolvendo-se sob o impulso de correntes opostas.
      Em meio ao turbilhão, quebrada, dispersa, desordenada, uma caravana inteira desaparecia sob
      a avalancha de areia.  Os camelos em confusão soltavam gemidos surdos e lastimosos. Gritos
      e  rugidos  rompiam  daquele  nevoeiro  sufocante.  Por  vezes,  alguma  veste  de  pano  colorido
      cortava o caos com as suas vivas cores, enquanto o mugido da tormenta  dominava a cena de
      destruição. A areia não tardou a acumular-se em massas compactas e ali onde momentos antes
      se  desdobrava planície lisa, erguia-se agora colina ainda movediça, túmulo gigantesco de
      uma caravana sepultada.

      O doutor e Kennedy, pálidos, contemplavam o terrível  espetáculo, sem poderem manobrar o
      balão  que  redemoinhava    entre  correntes  contrárias,  não  obedecendo  mais  às  diferentes
      dilatações  do  gás.  Envolvida  naqueles  desencontros  do  ar,  a    barca  turbilhonava  com
      vertiginosa  rapidez,  descrevendo  vastas  oscilações.  Os  instrumentos  suspensos  sob  o  toldo
      ameaçavam  quebrar-se  nos  choques,  os  tubos  da  serpentina  dobravam-se  até  a  ruptura,  as

      caixas-d’água deslocavam-se com estrépito. A setenta centímetros de distância, os viajantes
      não  conseguiam ouvir-se e, com as mãos crispadas seguras ao cordame, tentavam equilibrar-
      se  no  furor  da  tormenta.  Kennedy,    de  cabelos  revoltos,  olhava  sem  nada  dizer.  O  doutor
      recuperara  toda  a  sua  audácia  no  meio  do  perigo  e  nada  transparecia  em  seu  rosto  das
      violentas  emoções  que  sentia,  mesmo    quando  após  derradeiro  giro  o  Vitória  se  encontrou
      subitamente detido em calma inesperada: o vento norte apanhara-o  por baixo e impelia-o em
      sentido inverso para a rota da manhã com velocidade não inferior.

      – Para onde vamos?  gritou Kennedy.
      – Para onde a Providência quiser, meu caro Dick.  Fiz mal em duvidar dela. Ela sabe melhor
      do que nós o que convém e aqui estamos voltando a lugares que não mais  esperávamos ver.
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