Page 136 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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búfalos selvagens e o ajub, espécie de lamantim bastante perigoso, faziam terrível barulho na
mata ou sob as águas do lago. O concerto das feras retumbava no silêncio da noite. Joe não
ousava mexer-se. Sua resignação e paciência foram difíceis de conter em semelhante
situação.
Enfim o dia chegou. Joe levantou-se precipitadamente, e avaliem a repugnância que sentiu ao
ver o animal imundo que partilhara a sua cama: um sapo! mas um sapo de cinco polegadas de
grossura, um sapo monstruoso, nojento, que o fitava com grandes olhos redondos. Joe sentiu
engulhos, mas tirando um resto de força da sua repugnância correu a mergulhar nas águas do
lago. O banho acalmou um pouco as comichões que o torturavam e, depois de ter mastigado
algumas folhas, retomou a marcha com obstinação e teimosia que nem estava em condições de
avaliar. Dir-se-ia ter perdido a consciência dos seus atos e contudo sentia em si força
superior ao desespero. Uma fome terrível torturava-o e o estômago, menos resignado que ele,
reclamava. Foi obrigado a apertar fortemente um cipó em redor da cintura. Felizmente a sede
podia ser mitigada a cada passo e recordando-se dos sofrimentos do deserto experimentou
relativo conforto em não ter de sentir os tormentos daquela imperiosa necessidade.
"Onde estará o Vitória? perguntava-se. O vento sopra do norte, ele deveria voltar ao lago!
Decerto o doutor Fergusson procedeu a uma nova instalação para restabelecer o equilíbrio,
mas o dia de ontem devia ter bastado para esse trabalho. Talvez não seja impossível que
hoje... Em todo caso é melhor agir como se eu nunca mais devesse tornar a vê-los. Por fim,
se eu conseguir alcançar uma dessas grandes cidades do lago, encontrar-me-ei na situação
dos viajantes de que meu amo nos falou. Por que não hei de sair de apuros como eles? Outros
lograram salvar-se, que diabo! ... Vamos, coragem!”
Assim monologando e caminhando sempre, o intrépido Joe caiu em plena floresta, no meio de
um grupo de selvagens. Parou a tempo de não ser visto. Os pretos ocupavam-se em envenenar
as suas flechas com suco de eufórbio, grande preocupação das tribos dessas terras e que se
leva a efeito com uma espécie de cerimônia solene. Joe, imóvel, contendo a respiração, ia
esconder-se numa brecha, quando ao erguer os olhos, por um intervalo da folhagem, avistou o
Vitória, o próprio Vitória que se dirigia para o lago, apenas a trinta metros acima dele. Era
impossível fazer-se ver!
Veio-lhe uma lágrima aos olhos, não de desespero, mas de gratidão. O amo andava a sua
procura! O amo não o abandonava! Necessitou esperar a partida dos negros, quando então
pôde deixar o esconderijo e correr para as margens do Tchad. Mas o Vitória já se perdia ao
longe, no céu. Joe resolveu esperar: ele passaria outra vez, com certeza! E passou, com
efeito, porém mais a leste. Joe correu, gesticulou... Em vão! Forte vento arrastava o balão
com excessiva pressa.
Pela primeira vez a energia e a esperança abandonavam o coração do infeliz. Viu-se perdido.
Imaginou que o amo partia para não mais voltar. Deixou de pensar, não queria refletir. Como
louco, com os pés em sangue e o coração ferido, marchou durante todo aquele dia e uma parte
da noite. Arrastava-se, umas vezes de joelhos, outras com as mãos. Via chegar o momento em
que as fôrças lhe faltariam e acabaria por morrer.
Prosseguindo disse modo foi dar a um pântano ou, antes, a um lugar que só depois veio a
saber que era um pântano, porque a noite já descera havia algumas horas. Inesperadamente,
caiu num lamaçal compacto e a despeito dos maiores esforços e de desesperada resistência
sentia-se afundar pouco a pouco no lodo movediço. Minutos depois estava enterrado até à

