Page 87 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
P. 87

da barca!
      – Dick! Dick!  berrou o doutor  a caixa-d’água.
      Kennedy compreendeu a idéia do amigo, e, erguendo uma  das caixas-d’água, que pesava mais

      de cinqüenta quilos, jogou-a por cima da borda. O Vitória, subitamente aliviado,  deu um salto
      de  cem  metros  nos  ares  em  meio  aos  rugidos    da  tribo,  à  qual  o  preso  escapava  entre
      fulgurantes raios de  luz.
      – Hurra!  gritaram os dois companheiros do doutor.
      De repente, o balão deu novo pulo que o levou a mais  de trezentos metros de altura.
      – Que é isso?  perguntou Kennedy que quase perdera  o equilíbrio.

      –  Não  é  nada!  Deve  ser  esse  patife  que  nos  deixa    respondeu  tranqüilamente  Samuel
      Fergusson.
      Joe, debruçando-se rapidamente, pôde ainda avistar o  selvagem, de mãos estendidas, rolando
      no espaço e logo espedaçando-se no chão. O doutor afastou então os dois fios elétricos e de
      novo se fez treva. Era uma hora da manhã.
      O francês, que desmaiara, abriu os olhos.
      – O senhor está salvo  disse-lhe o doutor.

      – Salvo  murmurou o outro em inglês com triste sorriso  sim, salvo de morte cruel! Obrigado,
      meus irmãos.  Meus dias, porém, estão contados, até minhas horas; não me  resta muito tempo
      para viver!
      E o missionário, esgotado, recaiu em seu torpor.
      – Vai morrer!  exclamou Dick.

      – Não, não  respondeu Fergusson, debruçando-se sobre  ele , mas está muito fraco. Deitemo-lo
      debaixo do toldo.
      Estenderam  devagar  por  cima  das  mantas  aquele  pobre    corpo  emagrecido,  coberto  de
      cicatrizes  e  de  feridas  ainda  sangrentas,  onde  o  ferro  e  o  fogo  haviam  deixado  em  vários
       lugares os seus dolorosos vestígios. O doutor fez com o auxílio de um lenço uma espécie de
      gaze que estendeu sobre as  chagas depois de as ter lavado, procedendo habilmente e com  os
      cuidados de um médico. Em seguida, tomando um cordial  da sua farmácia portátil, derramou
      algumas gotas entre os lábios do paciente.

      Este franziu levemente os compassivos lábios e mal teve  fôrças para dizer:
      – Obrigado! Obrigado!
      O doutor compreendeu que necessitava deixá-lo em absoluto repouso e, correndo os panos do
      toldo, regressou ao governo do balão.
      Este, tomando em conta o peso do novo hóspede, fora  deslastrado de quase noventa quilos,

      podendo  manter-se  sem    a  ajuda  do  maçarico. Aos  primeiros  alvores  do  dia  uma  corrente
      impeliu-o brandamente para nor-noroeste. Fergusson foi  observar por alguns instantes o padre
      adormecido.
      – Oxalá, possamos conservar este companheiro que o céu  nos enviai  disse o caçador. Tem
      esperança?   Tenho, Dick. Com alguns cuidados e este ar puro...
      – Como este homem deve ter sofrido!  acudiu Joe emocionado. Fez uma façanha muito maior
      que a nossa, vindo  sozinho para o meio destas tribos.

      – Certamente  respondeu o caçador.
      Durante todo aquele dia, o doutor não consentiu que o  sono do enfermo fosse interrompido.
      Era uma longa modorra, entrecortada de murmúrios de dor que não deixavam de preocupar
   82   83   84   85   86   87   88   89   90   91   92