Page 86 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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O MISSIONARIO





      Fergusson assestou para os diversos pontos do espaço o seu potente raio de luz, demorando-o
      num  lugar  onde  estalaram  gritos  de  pavor.  Os  dois  companheiros  olharam  com    avidez.  O
      baobá sobre o qual se mantinha o Vitória quase imóvel erguia-se ao centro de uma clareira.
      Entre  duas  plantações  de  gergelim  e  de  cana-de-açúcar  avistavam-se  cerca  de    cinqüenta
      cabanas baixas e cônicas, em redor das quais formigava tribo numerosa.

      Cinqüenta  metros  abaixo  do  balão,  estava  cravado  um    poste  e,  junto  a  ele,  uma  criatura
      humana,  homem  de  trinta    anos  quando  muito,  de  longos  cabelos  negros,  meio  nu,  magro,
       ensangüentado, coberto deferimentos, a cabeça pendida sobre  o peito, como Cristo na cruz.
      Alguns cabelos mais curtos  no alto do crânio indicavam ainda o lugar de uma tonsura  meio
      apagada.
      – Um missionário! Um sacerdote!  exclamou Joe.

      – Pobre desgraçado!  acrescentou o caçador.
      – Havemos de salvá-lo, Dick  interveio Fergusson ,  havemos de salvá-lo.
      A  multidão  de  pretos,  ao  avistar  o  balão  semelhante  a    um  cometa  enorme  com  cauda  de
      incomparável esplendor, foi assaltada de pavor fácil de conceber. Ouvindo os gritos, o  preso
      ergueu a cabeça, brilhou-lhe no olhar um raio de esperança e sem compreender bem o que se
      passava estendeu as  mãos para os seus inesperados salvadores.
      –  Está  vivo!  Está  vivo!    gritou  Fergusson.  Deus  seja    louvado!  Os  selvagens  estão

      convenientemente apavorados, havemos de salvá-lo! Estão prontos, amigos?
      – Estamos prontos, Samuel.
      – Joe, apaga o maçarico.
      A ordem do doutor foi cumprida. Uma brisa apenas perceptível impelia brandamente o Vitória
      para  cima  do  prisioneiro,  ao  mesmo  tempo  em  que  ia  baixando  aos  poucos  por  efeito  da
      contração  do  gás.  Por  uns  dez  minutos  ficou  balançando  em  meio  às  ondas  luminosas.

      Fergusson projetava  sabre a turba o luminoso facho, que espalhava aqui e além  bruscas e
      vivas placas de luz. A tribo, dominada por indescritível terror, foi-se refugiando nas cubatas e
      a solidão não  tardou a fazer-se em redor do poste. O doutor tivera razão  em contar com a
      fantástica  aparição  do  Vitória,  despejando    raios  de  sol  naquela  densa  treva. A  barquinha
      aproximou-se  do chão, enquanto alguns negros mais atrevidos, compreendendo que a vítima
      ia  escapar-lhes,  voltaram  com  grandes  brados.  Kennedy  apanhou  o  fuzil,  mas  o  doutor
      ordenou-lhe  que não atirasse.

      O padre, ajoelhado, não tendo já força para manter-se  de pé, nem sequer estava amarrado ao
      poste porque a sua  fraqueza tornava inútil qualquer sujeição. No instante em  que a barca
      chegou ao solo, o caçador, largando a arma, agarrou o sacerdote pela cintura e meteu-o para
      dentro,  justamente  quando  Joe  atirava  fora  às  pressas  os  cem  quilos  de    lastro.  O  doutor
      esperava subir com extrema rapidez, mas  ao contrário das suas previsões, o balão, depois de
      elevar-se um  pouco, imobilizou-se  Que é que nos retém?  gritou ele assustado.

      Alguns selvagens corriam, lançando gritos ferozes.
      -Oh!  exclamou Joe, debruçando-se para fora. Um desses malditos pretos agarrou-se ao fundo
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