Page 88 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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Fergusson. A noite, o Vitória estacionou em meio à escuridão e, durante todo o tempo em que
Joe e Kennedy se revezaram à cabeceira do doente, Fergusson velou pela segurança de
todos.
No outro dia de manhã, o Vitória mal derivara para oeste. O dia anunciava-se puro e
maravilhoso e o doente já pôde chamar os seus novos amigos com voz mais clara. Correram-
se os panos do toldo e ele aspirou com delícia o ar puro da manhã.
– Como está passando? perguntou-lhe Fergusson.
– Creio que melhor respondeu ele. Mas, meus amigos, apenas os vi como num sonho! Mal
posso compreender o que se passou. Como se chamam, para que os seus nomes não sejam
esquecidos na minha derradeira prece?
– Nós somos viajantes ingleses respondeu Fergusson. Estamos tentando a travessia da África
em balão e, de passagem, tivemos a sorte de salvá-lo.
– A ciência tem os seus heróis disse o missionário.
– Mas a religião tem os seus mártires redargüiu o escocês.
– O senhor é missionário? perguntou o doutor.
– Sou padre da missão dos lazaristas. Deus enviou-me os senhores, Deus seja louvado por
isso. O sacrifício da minha vida estava feito! Mas os senhores vêm da Europa! Falem-me da
Europa, da França! Não recebo notícias há cinco anos!
– Cinco anos, sozinho, entre estes selvagens! exclamou Kennedy.
– São almas que é preciso resgatar continuou o jovem sacerdote , nossos irmãos ignorantes e
bárbaros que só a religião pode instruir e civilizar.
Samuel Fergusson, atendendo ao desejo do missionário, falou largamente da França. O padre
ouvia-o avidamente, com as lágrimas a escorrer dos olhos. O pobre moço tomou devagar as
mãos de Kennedy e de Joe entre as suas, que ardiam em febre. O doutor preparou-lhe algumas
chávenas de chá que ele bebeu com satisfação. Pôde então erguer-se um pouco e sorrir,
vendo-se arrebatado naquele céu tão puro.
– São uns intrépidos viajantes disse ele e hão de vencer nessa arrojada empresa. Tornarão a
ver parentes e amigos, a amada pátria!...
A debilidade do jovem sacerdote mostrou-se tão grande que foi preciso tornar a deitá-lo.
Uma prostração de algumas horas deixou-o como morto nos braços de Fergusson, que mal
podia conter a emoção, sentindo fugir aquela vida. Iriam perder tão depressa aquele que
haviam arrancado ao suplício? Pensou de novo as horríveis chagas do mártir e necessitou
sacrificar a maior parte da sua provisão de água para refrescar-lhe os membros ardentes.
Cercou-o dos cuidados mais ternos e inteligentes. O doente renasceu-lhe pouco a pouco nos
braços, recuperando, se não a vida, pelo menos o sentimento. O doutor ouviu-lhe a história
em frases entrecortadas.
– Fale na sua língua materna disse-lhe ele. Eu compreendo-a muito bem e isso o fatigará
menos.
O missionário era um pobre moço da aldeia de Aradon, na Bretanha, em pleno Morbihan.
Seus primeiros instintos levaram-no para a carreira eclesiástica. A vida de abnegação quis
ainda acrescentar uma vida de perigos, entrando para a ordem dos padres da Missão de que
São Vicente de Paula foi o glorioso fundador, e aos vinte anos trocava o seu país pelas
inóspitas plagas da África. De lá, pouco a pouco, transpondo obstáculos, enfrentando
privações, caminhando e rezando, avançou até ao meio das tribos que habitam os afluentes do

