Page 104 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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quilômetros  do  lago  Tchad,  a  mais  de  oitocentos  das  costas    ocidentais  da  África.  Ao
      chegarem à terra, Dick e Joe  saíram do seu pesado torpor.
      – Paramos aqui?  perguntou o escocês.

      – Não há outro remédio  respondeu Samuel em tom  grave.
      Os companheiros compreenderam. O solo achava-se então  ao nível do mar, em virtude da sua
      constante  depressão,  de  modo  que  o  balão  se  manteve  em  perfeito  equilíbrio  e  absoluta
      imobilidade.
      O peso dos viajantes foi substituído por carga equivalente de areia e todos desceram. Cada
      qual se mergulhou nas  suas preocupações e durante várias horas ninguém falou. Joe  preparou

      a ceia, composta de biscoito e carne de conserva,  em que mal tocaram. Um gole de água
      quente completou a  triste refeição.
      Durante a noite, ninguém velou, mas também ninguém dormiu. O calor era sufocante. No dia
      seguinte, apenas restava meio litro de água, que o doutor pôs de lado, decidido  a não tocar
      senão em recurso extremo.
      –  Sinto-me  abafar    disse  Joe  pouco  depois.  O  calor    aumenta!  Mas  não  é  de  admirar
      acrescentou depois de ter  consultado o termômetro. Sessenta graus!

      – A areia queima!  acudiu o caçador com a sensação  de estar dentro de um forno. E nem uma
      nuvem neste céu  implacável! É de ficar louco!
      –  Não  desanimemos    volveu  o  doutor. A  estes  grandes    calores  sucedem  invariavelmente
      tempestades  nestas  latitudes,    que  chegam  com  a  rapidez  dos  relâmpagos.  Apesar  da
      acabrunhadora serenidade do céu, poderão sobrevir grandes mudanças em menos de uma hora.

      – Mas de qualquer modo haveria indício!  tornou  Kennedy.
      – Bem!  respondeu o doutor  parece-me que o barômetro tem ligeira tendência para baixar.
      – Deus o ouça, Samuel, pois estamos colados neste chão  como aves de asas quebradas.
      – Apenas com a diferença de que as nossas asas estão  intactas e espero que elas ainda nos
      possam servir.
      – Ah! Quem me dera um pouco de vento que nos levasse  a um riacho ou a um poço!  exclamou
      Joe. Então, nada  nos faltaria. Nossos víveres são suficientes e com água poderemos esperar
      um mês sem dificuldade! Mas a sede é coisa  terrível.

      A  sede  e  também  a  contemplação  incessante  do  deserto  cansavam  o  espírito.  Não  havia
      nenhum acidente de terreno,  nenhum montículo de areia, ou um calhau onde se detivesse  o
      olhar. Aquela uniformidade desanimava, causando aquilo  que se chama o mal do deserto. A
      impassibilidade  do  árido  azul  do  céu  e  da  infindável  amarelidão  da  areia  terminava    por
      horrorizar. Naquela atmosfera incandescente o calor parecia vibrar como por sobre fogueira

      em chamas. O espírito  cansava-se de ver aquela imensa calma, sem entrever motivo algum
      que fizesse cessar tal estado de coisas, pois a imensidão  é uma espécie de eternidade. Os
      infelizes,  privados  de  água    sob  aquela  temperatura  tórrida,  começaram  experimentando
       sintomas de alucinação. Os olhos arregalavam-se, turvavasse-lhes a vista. Chegada a noite, o
      doutor  decidiu  combater  a    inquietadora  predisposição  por  meio  de  caminhada  rápida,
        propondo  correrem  a  planície  arenosa  durante  algumas  horas,    não  em  busca  de  qualquer
      coisa mas simplesmente para andar.

      – Venham  disse ele aos companheiros. Acreditem que  isso nos fará bem.
      – Impossível  respondeu Kennedy  não conseguiria  dar um passo.
      – Quanto a mim, prefiro dormir  declarou Joe.
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