Page 102 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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sol, pareciam ser apenas formadas de poeira impalpável. Não havia vestígio de umidade. O
coração de Samuel oprimiu-se e ia já participar os seus temores aos companheiros, quando as
exclamações destes lhe chamaram a atenção.
Para o oeste, a perder de vista, estendia-se longa linha de ossadas brancas. Pedaços de
esqueletos rodeavam a fonte. Alguma caravana chegara até ali, marcando sua passagem com
aquele grande ossário. Os mais fracos tinham caído pouco a pouco na areia e os mais fortes,
logrando alcançar a tão desejada fonte, haviam encontrado ao pé dela morte horrível.
Os viajantes encararam-se, empalidecendo.
– Não vale a pena descer disse Kennedy. Fujamos quanto antes deste medonho espetáculo!
Não há aí uma gota de água a recolher.
– Não, ainda que seja só por descargo de consciência. Tanto vale passar a noite aqui como
além. Esquadrinharemos o poço até ao fundo. Houve aí uma nascente e é possível que ainda
reste qualquer coisa.
O Vitória desceu. Joe e Kennedy introduziram na barca peso de areia equivalente ao deles e
saltaram, correndo para o poço onde penetraram por escada quase desfeita em pó. A
nascente parecia extinta há longos anos. Romperam a cavar na areia seca e esboroável, a mais
árida que se possa imaginar. Não havia indícios de umidade. O doutor viu-os regressar à
superfície do deserto, suados e esfalfados, cobertos de fina poeira, abatidos, desanimados,
desesperados.
Compreendeu a inutilidade das buscas. Era o que esperava e, portanto nada disse. Sentiu que a
partir daquele instante necessitava ter coragem e energia por três. Joe trazia pedaços de outra
pele endurecida, que jogou fora com raiva para o meio das ossadas dispersas pelo chão.
Durante a ceia, os viajantes não trocaram palavras e parecia comerem com repugnância.
Contudo, não haviam ainda sofrido verdadeiramente as torturas da sede. Apenas receavam
pelo futuro.

