Page 106 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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O OASIS





        No  dia  seguinte,  o  primeiro  cuidado  do  doutor  foi    consultar  o  barômetro. A  coluna  de
      mercúrio mal acusava  pequena depressão.
      – Nada!  exclamou ele. Nadai Saiu da barca e foi examinar o tempo. O mesmo calor,  a mesma
      limpidez, a mesma implacabilidade   Teremos de desanimar?  bradou ele.
      Joe nada disse, absorto na sua idéia e meditando em  seu projeto de exploração.

      Kennedy levantou-se doente e presa de excitação inquietadora. Sofria horrivelmente de sede.
      A língua e os lábios  inchados mal conseguiam articular um som. Restavam ainda  umas gotas
      de água. Todos o sabiam, todos pensavam nela  e se sentiam atraídos para ela, mas nenhum
      ousava dar um  passa.
      Aqueles três companheiros, três amigos, olhavam-se com  olhos esgazeados, num sentimento
      de  bestial  avidez  que,  sobretudo  se  manifestava  em  Kennedy.  Sua  robusta  organização

      sucumbia mais depressa àquelas intoleráveis privações. Durante todo o dia se manteve em
      delírio andando de um lado  para outro, soltando urros, mordendo os punhos, pronto a  abrir as
      veias para beber o próprio sangue.
      – Ah! Terra da sede!  exclamou ele. Seria melhor que  te chamassem terra do desespero!
      Em seguida, caiu em profunda prostração. Apenas se lhe ouvia o silvo da respiração entre os
      lábios ressequidos. A noite, Joe foi por sua vez atacado de começo de loucura. Aquele  vasto
      deserto de areia afigurava-se-lhe como lago imenso, de  águas claras e límpidas. Mais de uma

      vez jogou-se ao chão  ardente para beber, levantando-se com a boca cheia de poeira.
      – Maldição!  gritava ele furioso. É água salgada!
      Então, vendo Fergusson e Kennedy estendidos imóveis,  entregou-se à idéia irresistível de
      esgotar as poucas gotas de  água deixadas em reserva.
      Era uma coisa mais forte que ele. Avançou para a barquinha, arrastando-se sobre os joelhos,
      procurou  com  os  olhos    a  garrafa  onde  se  continha  o  líquido,  atirou-lhe  olhar  esgazeado,

      agarrou-a e levou-a aos lábios.
      Naquele  momento  as  palavras:  "De  beber!  de  beber!"  foram  pronunciadas  num  tom
      confrangedor.
      Era  Kennedy  que  se  arrastava  para  junto  dele.  O  infeliz    dava  dó,  suplicava  de  joelhos,
      chorava.
      Joe, chorando também, estendeu-lhe a garrafa, cujo conteúdo o outro esvaziou até à derradeira
      gota.

      – Obrigado!  disse Kennedy.
      Mas Joe não o ouviu, de novo tombando como ele na  areia.
      O que se passou durante aquela noite pavorosa ninguém  o saberia dizer. Mas na terça-feira de
      manhã,  sob  os  jatos  de    fogo  com  que  os  vergastava  o  sol,  os  desventurados  sentiam  os
       membros secarem-se pouco a pouco. Quando Joe quis erguesse não o conseguiu, nem pôde
      pôr em execução o seu projeto.

      Lançou os olhos em redor. Na barca, o doutor, acabrunhado, com os braços cruzados no peito,
      olhava  no  espaço    um  ponto  imaginário  com  fixidez  idiota.  Kennedy  estava  aterrador.
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