Page 99 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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O DIA SEGUINTE
A mesma limpidez de céu, a mesma imobilidade da atmosfera. O Vitória subiu a uma altura de
duzentos metros, porém mal se deslocou para oeste.
– Estamos em pleno deserto comentou o doutor. Que imenso areal! Que estranho espetáculo!
Que singular disposição da natureza! Por que lá longe aquela vegetação luxuriante e aqui esta
excessiva aridez, na mesma latitude, sob os mesmos raios de sol?
– O porquê, meu caro Samuel, interessa-me pouco respondeu Kennedy. A razão preocupa-me
menos que o fato. É assim e isto é o importante.
– Mas podemos filosofar um pouco, meu caro Dick. Não nos fará mal nenhum.
– Pois filosofemos, tanto mais que há tempo bastante para isso. Acho que não estamos
andando. O vento tem medo de soprar, parece adormecido.
– Isto não vai durar muito. Creio avistar faixas de nuvens a leste.
– Joe tem razão respondeu o doutor.
– Seria excelente encontrarmos uma nuvem com boa chuvarada e bom vento que nos fustigasse
o rosto!
– Veremos, Dick, veremos.
– Não teme o efeito deste sol ardente sobre o nosso balão? perguntou Kennedy ao doutor.
– Não, a guta-percha de que o tafetá está embebido suporta temperaturas muito elevadas.
Aquela a que eu a submeto interiormente por meio da serpentina alcançou, por vezes, setenta
graus centígrados e o invólucro não parece ter-se ressentido.

