Page 103 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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PESQUISAS DESESPERADAS
O caminho percorrido pelo Vitória no dia precedente não excedera quinze quilômetros e
haviam sido consumidos cinco mil e oitocentos litros de gás. No sábado pela manhã o doutor
deu o sinal de partida.
– O maçarico não poderá funcionar mais de seis horas informou ele. Se nesse espaço de
tempo não descobrirmos poço ou nascente, só Deus sabe o que será de nós.
– Há pouco vento esta manhã, meu amo! observou Joe. Mas talvez ele ainda se levante
acrescentou, vendo a tristeza mal disfarçada de Fergusson.
Baldada esperança! Fazia no ar, calma completa. O calor tornava-se intolerável e o
termômetro à sombra, debaixo do toldo, marcava quarenta e cinco graus.
Joe e Kennedy, estendidos lado a lado, buscavam, se não no sono pelo menos no torpor,
esquecer a situação.
As torturas da sede começaram a manifestar-se cruelmente. A aguardente, longe de atenuar a
imperiosa necessidade, aumentava-a, merecendo bem o nome de leite de tigres que lhe dão os
naturais da África. Restavam apenas dois litros de um líquido morno. Todos cobiçavam com
os olhos aquelas poucas gotas preciosas, nenhum ousando mergulhar nelas os lábios. Dois
litros de água, no meio do deserto!
Então, o doutor Fergusson, imerso em suas reflexões, perguntou a si mesmo se porventura
agira com prudência. Não teria agido melhor conservando aquela água decomposta em pura
perda para se manter na atmosfera? Decerto progredira no caminho. Mas que adiantava isso?
Ainda que se achasse a oitenta quilômetros atrás, naquela latitude, que importava se a água
lhe faltava ali? O vento, se enfim se levantasse, tanto sopraria lá como aqui, talvez aqui ainda
menos rápido se viesse de leste! Mas a esperança não abandonou Fergusson, apesar de que
aqueles nove litros de água consumidos em vão bastariam para nove dias de parada no
deserto. Talvez mesmo, se conservasse a água, tivesse podido subir mais, jogando fora lastro,
perdendo depois gás para tornar a descer. Mas o gás do balão era o seu sangue e a sua vida!
Estas e outras mil reflexões tumultuavam-lhe a cabeça, que segurou entre as mãos sem a
erguer durante horas inteiras.
– É preciso fazer derradeiro esforço! disse consigo às dez horas da manhã. Tentaremos mais
uma vez encontrar corrente atmosférica que nos arraste! Temos de arriscar os últimos
recursos!
E, enquanto os companheiros dormitavam, elevou a alta temperatura o hidrogênio do
aeróstato, que se arredondou pela dilatação do gás e subiu entre os raios perpendiculares do
sol. Em vão o doutor buscou um sopro de vento desde trinta até nove mil metros; o ponto de
partida continuava obstinadamente em baixo dele. Parecia reinar calmaria absoluta até aos
derradeiros limites do ar respirável. Por fim, a água esgotou-se. O maçarico extinguiu-se por
falta de gás, a pilha de Bunsen deixou de funcionar e o Vitória, contraindo-se, desceu
vagarosamente sobre a areia, no próprio lugar que antes tinham cavado.
Era meio-dia. A tomada de posição revelou dezenove graus e trinta e cinco minutos de
longitude e seis graus e cinqüenta e um minutos de latitude, a cerca de novecentos

