Page 105 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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– Mas o sono ou o repouso vão ser-lhes funestos, amigos.  Reajam contra esse torpor. Vamos,
      venham comigo! Todavia, não pôde convence-los e afastou-se sozinho em  meio à estrelada
      transparência da noite. Os primeiros passos  foram difíceis como os de um homem debilitado

      e  desacostumado  de  andar.  Mas  não  tardou  a  reconhecer  que  aquele  exercício  lhe  seria
      benéfico. Andou  vários  quilômetros  para  oeste    e  seu  ânimo  já  se  recuperava  quando,  de
      repente, o tomou  urna vertigem. Pareceu-lhe debruçar-se num abismo, os joelhos  vergavam-
      lhe, a vasta solidão aterrou-o. Sentia-se como o  ponto matemático, o centro de circunferência
      infinita, nada,  enfim! O Vitória diluía-se inteiramente nas trevas. O doutor  sentiu-se prêsa de
      invencível pavor, ele tão impassível, tão  ousado viajante! Quis voltar, mas em vão. Chamou!

      Sequer  um eco lhe respondeu e a sua voz caiu no espaço como pedra  em abismo sem fundo.
      Caiu desfalecido na areia, só, em meio  ao grande silêncio do deserto.
      A  meia-noite,  recobrou  os  sentidos  nos  braços  do  fiel    Joe  que,  inquieto  da  prolongada
      ausência do amo, lhe seguira as pegadas claramente estampadas na areia, onde o  encontrou
      desmaiado.
      – Que tem, meu amo?  perguntou-lhe.
      – Não é nada, apenas um momento de fraqueza.

      – Não há de ser nada, com efeito, senhor, mas levante-sê.  Encoste-se em mim e regressemos
      ao Vitória.
      o doutor, pelo braço de Joe, repercorreu o caminho  feito. Podia ter sido assaltado e roubado
      acrescentou ele  rindo. Agora falemos seriamente.
      – Estou ouvindo, pode dizer.

      – Precisamos absolutamente tomar resolução. Esta situação poderá quando muito prolongar-se
      alguns dias e se não  houver vento estaremos perdidos.
      O doutor não respondeu.
      – É portanto indispensável que alguém se sacrifique à  sorte comum e naturalmente serei eu.
      – Que quer dizer com isso? Tem algum projeto?
      – Um projeto muito simples: apanhar alguns víveres e  caminhar sempre em frente, até chegar
      a alguma parte, o  que não pode deixar de suceder. Enquanto isso, se Deus lhes  enviar vento
      favorável,  o  senhor  deverá  partir  sem  esperar-me.    Por  meu  lado,  se  eu  encontrar  alguma

      aldeia, arranjar-me-ei  com algumas palavras árabes que o senhor me dará por escrito e, ou
      lhes levarei socorros, ou deixarei por aí a minha  pele. Que lhe parece a minha idéia?
      – Insensata, mas digna do seu valente coração. Isso é  impossível, não consinto que nos deixe.
      – Mas, enfim, meu amo, precisamos tentar alguma coisa.  Isto em nada o prejudicará porque,
      como já lhe disse, não  precisa esperar-me e é provável que eu consiga alguma coisa!  Não,

      Joe,  não!  Não  nos  separemos.  Seria  mais  um    desgosto  acrescentado  aos  que  já  nos
      atormentam. Estava escrito que assim havia de ser e também provavelmente estará  escrito que
      as coisas mudarão no futuro. O que nos cumpre  é esperar com resignação.
      –  Pois  seja  assim,  meu  amo,  mas  previno-o  de  uma  coisa:    dou-lhe  apenas  um  dia  e  não
      esperarei  mais.  Hoje  é  domingo    ou,  antes,  segunda-feira,  pois  já  passa  da  meia-noite.  Se
      terça-feira não partirmos, tentarei a aventura. É uma determinação  irrevogável.
      O doutor não respondeu. Não tardaram a alcançar a  barca e ele foi acomodar-se junto de

      Kennedy, mergulhado  em silêncio absoluto que não devia ser efeito do sono.
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