Page 100 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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O POÇO DO DESERTO
– Uma nuvem! Uma autêntica nuvem! gritou Joe, cuja vista penetrante desafiava qualquer
luneta.
Na verdade, uma faixa espessa e agora mais distinta se erguia lentamente no horizonte,
parecendo profunda e como intumescida. Era um amontoado de pequenas nuvens que
conservavam, invariavelmente, a sua forma primitiva, de onde o doutor concluiu não existir
nenhuma corrente de ar entre aquela aglomeração.
A massa compacta surgiu pelas oito horas da manhã e só às onze atingiu o sol, que
desapareceu atrás da espessa cortina. Justamente naquele instante a parte inferior da nuvem se
desprendia da linha do horizonte que brilhou em plena luz.
– É uma nuvem isolada observou o doutor. Não devemos contar muito com ela. Repare, Dick,
a sua forma continua sendo a mesma da manhã.
– Com efeito, Samuel, ela não traz chuva nem vento, pelo menos para nós.
– Assim o receio, visto que se conserva a grande altura. E se fôssemos ao encontro daquela
nuvem que não quer precipitar para nós?
– Não creio que nos adiante grande coisa respondeu o doutor. Significará dispêndio de gás e,
portanto, de água, o que é ainda pior. Mas na situação em que estamos, nada devemos
desdenhar, de modo que vamos subir.
O doutor abriu toda a alta chama do maçarico nas espirais da serpentina. Desenvolveu-se
calor violento e o balão não tardou a erguer-se sob a ação do hidrogênio dilatado. A cerca de
quinhentos metros do chão encontrou a massa opaca da nuvem e entrou em denso nevoeiro,
mantendo-se nessa altura. Mas não encontrou o menor sopro de vento, o nevoeiro parecia
mesmo desprovido de qualquer umidade e os objetos expostos ao seu contacto mal se
umedeceram. O Vitória, rodeado daquele vapor, alcançou talvez marcha mais sensível, mas
foi tudo. O doutor verificou com melancolia o resultado obtido pela manobra e, de repente,
Joe gritou em tom da mais viva surpresa:
– Ora essa! Que foi, Joe?
– Meu amo! senhor Kennedy! que coisa estranha! Mas que foi?
Não havia indícios de umidade.
– Não somos os únicos aqui! Alguém roubou a nossa invenção!
– Estará louco? pensou Kennedy, olhando Joe que parecia a estátua do espanto, tal a sua
imobilidade.
– Será que o sol desarranjou a cabeça do pobre rapaz? pensou, igualmente, o doutor voltando-
se para ele. Não me dirá que...
– Veja, meu amo disse Joe, indicando ponto no espaço.
– Por São Patrício! berrou Kennedy por sua vez não é possível! Samuel! Samuel, venha
ver! Já estou vendo respondeu tranqüilamente o doutor.
– É outro balão! Outros viajantes como nós!
Realmente, a setenta metros, um aeróstato flutuava no ar com a sua barquinha e os seus
viajantes, seguindo exatamente a mesma rota do Vitória.

