Page 101 - 6F CINCO SEMANAS EM UM BALÃO
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–  Bem!    acrescentou  o  doutor    não  nos  resta  senão    fazer-lhes  sinais.  Tome  a  bandeira,
      Kennedy, e mostre-lhes as  nossas cores.
      Dir-se-ia que os viajantes do outro aeróstato tiveram no  mesmo instante a mesma idéia, pois a

      mesma bandeira repetiu de modo idêntico a mesma saudação num braço que a  agitava do
      mesmo modo.
      – Que significa isso?  perguntou o caçador.
      – Devem ser macacos!  interveio Joe. Parecem escarnecer de nós!
      – Isso significa  explicou Fergusson rindo  que é você que faz a si próprio o sinal, meu caro
      Dick! Quer dizer  que somos nós mesmos que estamos na segunda barca! Aquele  balão é

      muito simplesmente o nosso Vitória.
      – Ah! Meu amo, salvo o respeito que lhe devo, nunca  poderei acreditar em semelhante coisa!
      – Suba à borda da nossa barca, levante os braços e verá.  Joe obedeceu e viu os seus gestos
      perfeita e instantaneamente reproduzidos.
      – É apenas efeito de miragem e não outra coisa  esclareceu o doutor. Simples fenômeno de
      óptica, devido a rarefação desigual das camadas de ar e nada mais.
      – É maravilhoso!  repetia Joe, sem poder convencer-se  e multiplicando as experiências à

      força de braços.
      – Que singular espetáculo!  disse Kennedy. Mas dá  gosto ver o nosso valente Vitória! Sabem
      que ele possui bela  aparência e se mantém majestosamente?
      –  O  senhor  pode  dar  a  explicação  que  quiser    tornou    Joe    mas  o  caso  é  que  o  efeito  é
      extraordinário!

      Enquanto isto, a imagem foi-se gradualmente apagando.  As nuvens subiram a grande altura,
      abandonando o Vitória, que desistiu de segui-las, e, ao fim de uma hora, desapareceram em
      pleno céu.
      O vento, já quase imperceptível, diminuiu ainda mais.  O doutor, desesperado, aproximou-se
      do solo.
      Pelas quatro horas, Joe notou qualquer coisa em relevo  na imensa planície de areia e, daí a
      pouco, afirmava que duas palmeiras se erguiam a pequena distância.
      – Palmeiras!  exclamou Fergusson. Então deve haver  alguma nascente ou algum poço.

      Apanhou a luneta e convenceu-se de que os olhos de Joe  não o enganavam.
      – Enfim!  repetia ele  água! água! e estamos salvos,  porque apesar de andarmos muito pouco
      estamos contudo andando e acabaremos por chegar.
      – Então, meu amo  propôs Joe , se bebêssemos um  pouco desde já? O calor está sufocante!
      – Pois bebamos, meu rapaz!

      Ninguém se fez de rogado. Um litro inteiro desapareceu,  reduzindo a provisão apenas a três
      litros e meio.
      – Ah! como isto regala!  exclamou Joe. Como é bom!
      – São as vantagens da necessidade  observou o doutor.
      – Tristes vantagens, sem dúvida  volveu o caçador.  E ainda que eu não gostasse de beber
      água haveria de bebê-la  com a condição de nunca mais ver-me privado dela.
      As seis horas, o Vitória planava acima das palmeiras.  Eram duas magras árvores, raquíticas,

      ressequidas, dois espetros de árvores quase sem folhas, mais mortas que vivas.  Fergusson
      olhou-as com terror.
      Junto delas avistavam-se as pedras meio roídas de um  poço que, calcinadas pelos ardores do
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